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Qual a diferença entre manhwa, manhua, mangá, webcomic e webtoon?

HAJA LOUCURA!

Depois de virar a doida dos manhwas/manhuas desse blog, fui no inferno e voltei quando não conseguia entender a diferença entre webcomic e webtoon. Minha jornada à procura de conhecimento foi estressante, porém enriquecedora, por isso decidi compartilhar o que aprendi com vocês. Outro motivo que me levou a fazer esse post foi porque não achei nenhum site com uma explicação decente sobre manhwa, manhua, webcomic e webtoon. Tipo… gente, eu sei o que é mangá, e juro que só botei ele no título por respeito, acredito que a maioria das pessoas aqui saiba, o que eu queria saber mesmo é do resto!

Faço vários posts de manhwas/manhuas, daí durante minha busca por informação meio que minha cabeça começou bugar

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E teve uma hora que eu definitivamente PIREI, porque não achava explicação decente em canto nenhummm!!!

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Ninguém sabia me explicar direito qual a diferença entre webcomic e webtoon, até que finalmente enlouqueci de vez: fui atrás de monografias, artigos e matérias de jornais estrangeiros, até que finalmente me deparei com uma mulher chamada Heekyoung Cho. Ela é professora associada do Departamento de Línguas e Literatura Asiáticas, e do Departamento de Línguas e Literaturas Eslavas da Universidade de Washington. É autora da Forgotten History of Translation: Literatura Russa, Mediação Japonesa e Formação da Literatura Coreana Moderna (Harvard University Asia Center, 2016).

Enfim, a mulher é o monstro da literatura e se concentra em estudos de tradução, interações literárias trans-regionais, serialidade em mídia antiga e nova, narrativa gráfica, produção transmídia e ecologia de mídia na Coreia contemporânea e no Leste da Ásia.

Resumo da ópera: tinha muita informação errada/confusa na internet e eu só fui entender de fato as coisas quando achei um artigo da Heekyoung Cho chamado “The Webtoon: A New Form for Graphic Narrative”. LEIAM SE POSSÍVEL. CLIQUEM AQUI. Boa parte desse post será baseado nele.

~ Vamos começar o post ~


PRIMEIRO, VAMOS CONHECER OS TERMOS E NACIONALIDADES

Manhwa ≠ Manhua ≠ Mangá


MANHWA

Manhwa é um termo geral coreano para designar histórias em quadrinhos fora da Coreia (tanto do Sul como do Norte). Na Coreia do Sul, os manhwagas (artistas de manhwas) são livres para se expressar através da arte, enquanto que na Coreia do Norte, os manhwas têm o papel de exaltar o governo comunista e fazer críticas ao colonialismo norte-americano e japonês. Outro ponto importante é que manhwas sul-coreanos estão vinculados com a forma impressa, mas também podem possuir formas digitais. 

Um dos primeiros exemplos de arte sequencial da Coreia foi o Bomyeongshiudo (hangul: 보명십우도), uma fábula budista onde uma vaca explica os fundamentos do budismo.

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Manhwas se diferenciam de mangás e manhuas não apenas pela nacionalidade, mas também pelo sentido de leitura. O sentido de leitura de manhwas é ocidental (esquerda para direita), enquanto que em quadrinhos japoneses e chineses o sentido de leitura é oriental (direita para esquerda). De acordo Ester Torres Simon, em “Otras opciones con identidad propia: el manhwa coreano, mangásmanhwas são muito mais parecidos entre si do que com as HQs ocidentais, apesar de possuírem sentido de leitura distinto. 

Um fato interessante é que essa “semelhança” entre mangá e manhwa não é coincidência ou coisa do tipo: tem a ver com a história da Coreia. No livro “Quadrinhos: História moderna de uma arte global” de Dan Mazur e Alexandre Danner, eles explanam um pouco sobre isso:

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“O Japão se esforçou durante os anos 1930 para suplantar a cultura tradicional coreana com o manhwa, que foi reduzido a pouco mais que um humor leve e adaptações escapistas de lendas tradicionais. O Japão se apropriou do manhwa como uma ferramenta para a sua própria propaganda nos anos 1940, uma prática usada pelos Estados Unidos em sua campanha para combater a propagação do comunismo durante a ocupação pós-guerra da região que formalmente se tornaria a Coréia do Sul. Cinco anos após o fim da ocupação japonesa, os dois países recém-libertados estavam envolvidos na Guerra da Coréia, com os Estados Unidos continuando a usar o manhwa como ferramenta para influenciar a opinião pública.” 

– Dan Mazur e Alexandre Danne

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Eu achei esse livro bastante interessante, uma vez que além de contextualizar o desenvolvimento dos quadrinhos com acontecimentos históricos, os autores também os enxergam como uma forma internacional de arte. Quem tiver oportunidade, leia. É muito enriquecedor. 

Além disso, os manhwas não são tão apegados ao tradicionalismo como os mangás, ou seja: são mais adeptos ao meio digital, uma vez que a indústria sul-coreana está expandindo seus horizontes através de plataformas online, possibilitando o lançamento de webcomics e webtoons. Irei explicar sobre esses termos mais a seguir. Outra coisa importante salientar é que manhwas não possuem uma regra restrita de cor: alguns são preto e branco, outros coloridos. 

Exemplos de manhwas:

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  • Figura 1. Título: The Breaker. Nacionalidade: quadrinho sul-coreano (manhwa).
  • Figura 2. Título: Tower of God. Nacionalidade: quadrinho sul-coreano (manhwa).
  • Figura 3. Título: Hot Blooded Woman. Nacionalidade: quadrinho sul-coreano (manhwa).

MANHUA

Termo utilizado para se referir aos quadrinhos chineses. A maioria possui traços realistas, bem detalhados e geralmente são coloridos. Entretanto, a questão do traço está mudando recentemente, alguns são simples, outros mais realistas e outros bem “norte-americanizados”. O sentido de leitura é da direita para esquerda. Estão vinculados com a forma impressa, mas também podem possuir formas digitais. Alguns são coloridos, outros em preto e branco, não existe uma regra fixa para as cores. Curiosidade: autores de manhuas são chamados de manhuajia.

A palavra “manhua”, literalmente “desenhos irresponsáveis”, é originalmente um termo do século XVIII usado na pintura chinesa conhecida como Sumi-ê (em japonês: 墨絵) ou Shuimohua (chinês tradicional:水墨畫). Exemplos da técnica de pintura oriental que surgiu na China abaixo:

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Com o surgimento de webcomics e webtoons no mercado industrial artístico, os manhuas começaram ganhar popularidade na China e foram cada vez mais utilizados para ativismo político e sátira – apesar de que, até hoje manhuas não são encarados como uma “arte séria” em território chinês ainda. Existe também a questão da censura artística, uma vez que a China ainda é um país comunista.

Exemplos de manhuas:

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  • Figura 1. Título: Prince Don’t Do This. Nacionalidade: quadrinho chinês (manhua).
  • Figura 2. Título: Song of the Long March. Nacionalidade: quadrinho chinês (manhua).
  • Figura 3. Título: Feng Shen Ji. Nacionalidade: quadrinho chinês (manhua).

MANGÁ

Esse aqui todo mundo sabe. “Mangá” é o termo utilizado para se referir aos quadrinhos japoneses. É caracterizado por possuir personagens expressivos com olhos grandes, arte geralmente não muito realista e serem publicados em preto e branco – apesar de que alguns apresentam capas coloridas em publicações especiais. Provavelmente essa cultura de quadrinhos em preto e branco deve estar relacionada com a economia de tinta, uma vez que grande parte da indústria de mangás do Japão ainda é impressa.

Exemplos de revistas físicas:

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  • Figura 1. Weekly Shōnen Jump. Revista da demografia shōnen.
  • Figura 2. Hana to Yume. Revista da demografia shōjo.
  • Figura 3. Be Love. Revista da demografia josei.

Sentido de leitura em mangás: direita para esquerda. Estão vinculados com a forma impressa, mas também podem possuir formas digitais. Desde muito tempo atrás, bem antes do Período Nara no Japão, desenhar já era comum para os japoneses. Na verdade, essa arte foi intensificada justamente no Período Nara com o surgimento do “Karakami”.

Sabem aquelas portas de correr (fusuma) com papéis de parede decorativos cheios de ilustrações? Karakami é basicamente uma técnica de impressão que as pessoas utilizavam/utilizam para decorar essas portas. A produção de Karakami começou em Kyoto (antiga capital japonesa) durante o período Heian.

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Aliás, desde centenas de anos atrás, o fusuma foi usado como painel de ilustrações mesclados com poemas (lembram de Chihayafuru? Pois é… estou falando de Karuta, mas naquela época existiam milhares de milhares de poemas. Karuta é apenas um jogo com poemas selecionados). Karakami foi uma técnica muito utilizada por aristocratas japoneses no Período Heian, mas só foi se popularizar (torna-se acessível para a população do Japão) no período Edo.

Além disso, o mangá possui uma característica distinta que correlaciona o idioma com a linguagem do quadrinho. Sonia Bibe Luyten fala um pouco disso em “O poder dos quadrinhos japoneses”.

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“A história da escrita japonesa tem essa tradição da abstração de traços de figuras reais, isto é, signos que representam e expressam visualmente a ideia das palavras, diferente da escrita alfabética, que não transmite sensorialmente nenhum sentido. Para entendê-la, é preciso decodificar as palavras em conceitos para obter o sentido desejado. Entre essa sequencia de imagens significativas (que é a escrita japonesa) e imagens sucessivas (que são as histórias em quadrinhos), há, portanto uma continuidade.” 

– Sonia Bibe Luyten

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Resumindo: a linguagem do quadrinho é importante para entender o universo que o autor cria e as sensações que quer passar. No caso da língua japonesa, é ainda mais complexo, uma vez que palavras não são simplesmente “palavras”, elas estão repletas de significados que remetem à construção da linguagem em determinada cena: os caracteres usados, o jeito como são posicionadas e a forma como são escritas. Isso é uma característica intrínseca, uma vez que as palavras podem reverberar o sentimento que o autor quer passar ao leitor.

Saibam que essa característica da linguagem não é apenas explorada em mangás, mas também na cultura geral japonesa. Eles a carregam com muito orgulho, tanto que profissões como calígrafos são extremamente respeitadas no país. O Shodō (書道 “Caminho da escritura”) é uma espécie de filosofia, um estilo de arte que é considerado uma metáfora para a própria vida. Através das pinceladas (fortes, delicadas, rápidas e lentas), associadas com variáveis como cor da tinta, pressão sobre o papel, o intervalo entre traços e o próprio material utilizado, os artistas conseguem expressar sentimentos através da forma com que as palavras são escritas.

Lembram do Handa de Barakamon? Ele é um calígrafo.

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Outra coisa interessante em mangás é que eles possuem um senso forte de nacionalidade. A cultura histórica é presente em várias obras, aspecto bastante interessante, uma vez que o conceito de cultura histórica aborda o papel da memória de um país. Mangás não são só sobre lutinhas e romance, eles também possuem conteúdo histórico: seja ele relacionado ao comportamento das pessoas, desde a mitologia do país. Às vezes acho engraçado como sei mais sobre a mitologia japonesa do que a do meu próprio país. Tenho uma lista de youkais em minha cabeça. 

Apesar do Japão ainda ser uma sociedade com certos costumes machistas, o mangá foi um bom divisor de águas em relação a produção de quadrinhos envolvendo mulheres, uma das grandes pioneiras foi Machiko Hasegawa. É uma das poucas mangakás que o nome sai da boca da minha avó e que pouco vejo sendo citada na internet, ou em monografias no geral. Meu Deus, sinto que estou me prolongando e isso daria um tema para outro post, se vacilar vou tá contando a história do mangá inteira aqui.

Exemplos de mangás:

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  • Figura 1. Título: Gintama. Nacionalidade: quadrinho japonês (mangá).
  • Figura 2. Título: One Piece. Nacionalidade: quadrinho japonês (mangá).
  • Figura 3. Título: Naruto. Nacionalidade: quadrinho japonês (mangá).

É foda néh? Eu falei que coloquei “mangás” no título por respeito e dos 3 foi o que mais falei kkkkk


AGORA VAMOS ENTENDER AS FORMAS/ESTILOS

Webcomic ≠ Webtoon

Segundo “The Webtoon: A New Form for Graphic Narrative”, artigo que estou usando como base para esse post, webcomic é diferente de webtoon. Pode existir outras definições e opiniões, mas esse artigo foi o mais completo e minucioso que achei em toda a internet. Pelo que vi muitas pessoas concordam com Haeekyoung Cho também. Baseado em sua explicação em “The Webtoon: A New Form for Graphic Narrative”,  irei destrinchar abaixo com mais detalhes as diferenças.  


WEBCOMIC

De acordo Heekyoung Cho, webcomic não é a mesma coisa que webtoon. “Webcomic” geralmente significa “quadrinhos publicados em um site”. Refere-se a quadrinhos que, independentemente da nacionalidade, são criados especificamente para serem publicados em uma plataforma online. Contudo, isso não significa que todos os quadrinhos que são publicados na internet são webcomics, visto que webcomics possuem seu próprio estilo.

Heekyoung Cho ainda chama atenção para o fato de que webcomics estão mais vinculados ao meio impresso do que os webtoons, uma vez que o formato paginado e as divisórias usadas para a construção das ilustrações dos webcomics são originalmente da indústria tradicional. Por exemplo: é muito mais fácil lançar um webcomic em formato impresso do que um webtoon. Quase sempre um webtoon terá que sofrer modificações para ser lançado impresso, já que ele não é paginado. 

Essa questão da impressão é muito importante, pois em quadrinhos convencionais e webcomics, o uso da calha (aquele espaço em branco entre as cenas) tem um papel passivo na história. Tradução: serve apenas para separar as cenas, não tem um significado profundo, enquanto que em webtoons esse espaço requer interpretação não-verbal. Irei explicar mais a fundo na parte de webtoons. 

Leitura em webcomics:

Exemplo 1:

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The Abandoned Empress (Season 1, cap 7)

Exemplo 2:

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Wotaku ni Koi wa Muzukashii (Capítulo 2, história extra)

Webcomic tem seu próprio formato, visto que possui estilo artístico originado da indústria tradicional de quadrinhos, que é paginada. Tentem imaginar essas obras acima em infinite scroll, seria estranho pra não dizer horrível…. uma vez que existiriam divisórias entre cada página, dando um aspecto periódico de “limitação”, coisa que não é frequente em webtoons. Entendem agora porque Heekyoung Cho defende que não podemos chamar tudo conté quadrinho que é publicado na internet de webcomic? Webcomic e webtoons têm seus próprios “estilos”, por assim dizer.

Exemplos de webcomics:

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  • Figura 1. Título: Wotaku ni Koi wa Muzukashii. Nacionalidade: quadrinho japonês (mangá). Forma/Estilo: webcomic.
  • Figura 2. Título: No Doubt in Us. Nacionalidade: quadrinho chinês (manhua). Forma/Estilo: webcomic.
  • Figura 3. Título: Soushi Souai (Liberum). Nacionalidade: quadrinho japonês (mangá). Forma/Estilo: webcomic.

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  • Figura 4. Título: Daughter of the Emperor. Nacionalidade: quadrinho sul-coreano (manhwa). Forma/Estilo: webcomic.
  • Figura 5. Título: The Abandoned Empress. Nacionalidade: quadrinho sul-coreano (manhwa). Forma/Estilo: webcomic.
  • Figura 6. Título: Empress of Another World. Nacionalidade: quadrinho sul-coreano (manhwa). Forma/Estilo: webcomic.

WEBTOON

Webtoon é uma nova forma de fazer quadrinhos, é basicamente um estilo. A palavra se originou da junção de “web” e “cartoon”.

Foi um termo que surgiu na Coréia do Sul e representa obras disponibilizadas para leitura online. Tem como característica principal ser publicado digitalmente em infinite scroll para se adaptar ao uso de celulares, tablets, computadores, etc. Inclusive, alguns possuem sons e efeitos especiais. Exatamente por essas características, webtoon é um estilo de fazer quadrinhos que une dois meios: o quadrinho e o digital. Não tem nada a ver com nacionalidade, apesar desse termo ter surgido na Coreia do Sul. Ou seja: é uma forma específica de fazer quadrinhos, que pode ser feita tanto na Coreia do Sul, como Japão, China, Estados Unidos e outros países. Logo, isso começou chocar com o conceito de webcomic também. 

Afinal, qual a diferença principal entre webcomic e webtoon? Ambos são publicados na internet, porém webcomic é  publicado em formato paginado, enquanto que webtoon é publicado em infinite scroll. Ok, mas é só essa diferença que existe? Não. Para Heekyoung Cho, existe outra diferença que é intrínseca para entendermos melhor a filosofia por trás do estilo dos webtoons: as calhas (os espaços entre os painéis). Em seu artigo, ela explica minuciosamente sobre esses espaços em branco, estarei explicando de uma maneira mais simples para vocês abaixo.

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Em webcomics, vocês nunca verão espaços entre painéis grandes demais, mas em webtoons sim. Por que isso? Porque essa calha é usada para distorcer a noção de tempo.

Galera, esse espaço em branco não tá lá de enfeite ou porque, pasmem, já ouvi isso de alguém, “o autor é preguiçoso”. Essas calhas enormes são usadas para fornecer elementos narrativos não-verbais: elas demonstram graficamente a atmosfera da história e o período de tempo entres cenas. 

Tradução:

  • Calhas com espaços longos: dependendo do tamanho, podem significar minutos, horas, dias ou até mesmo anos percorridos. Também podem significar uma ação que demorou muito tempo para o personagem tomar atitude, assim como uma cena forte de impacto, desespero, agonia ou suspense.
  • Calhas com espaços curtos: período de tempo dinâmico.

~ Uso efetivo das calhas e a distorção de tempo ~

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Solo Leveling (Season 1, cap 9)

Viram o tamanho daquele espaço em branco? Ele não tá ali de enfeite, o autor quer passar para o leitor a atmosfera da cena: suspense e desespero. É como se fosse um intervalo de cena enorme em uma situação crítica, que faz o leitor pensar instintivamente “AI MDS, CADÊ O RESTO? E AGORA??”, sentimento esse que os personagens também estão sentindo.

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The Virtues of The Villainess (Season 1, cap 14)

Nessa cena vocês podem ver que teve distorção de tempo, no caso aquele espaço em branco significa que minutos se passaram até ela chegar ao protagonista que está dormindo de baixo de uma árvore. Nessa cena passaram-se minutos, mas podem-se passar anos também… depende da construção da história e da cena, como vocês podem conferir abaixo em outro exemplo:

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I Want to Be You, Just For A Day (Season 1, Cap 10)

Nessa cena de I Want to Be You, Just For A Day, a protagonista voltou quase 10 anos no tempo. Reparem que o lapso temporal não depende só do tamanho da calha, mas também da construção narrativa da cena. Essa “volta no tempo” é bastante frequente em webtoons, eu diria que até bem mais do que em mangás (Se esse mangá não for Naruto, lógico).

Outra característica importante do webtoon é sua verticalidade. Esse atributo faz os artistas explodirem de criatividade, uma vez que trabalham em painéis contínuos. Isso significa que eles possuem uma gama de artifícios que podem usar ao seu favor, como por exemplo: ângulos e cenas gigantes. Essas cenas gigantes reverberam sentimentos que os autores querem passar naquele momento, os mais frequentes são reflexão e frenesi. Percebi isso depois de me afundar em manhwas e webtoons. 

~ Verticalidade: uso de ângulos ~

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Tower of God (Season 3, Cap 430)

~ Verticalidade: atributo frenesi ~

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The God of High School (Season 1, cap 68)

Lembro que a primeira vez que vi essa cena de TGoHS, eu fiquei tipo MISERICÓRDIAA! SÁPORRA VAI MORRERRR!!!” AHSUAHSUASHUH parecia que não acabava nunca. Provavelmente, o autor de TGoHS projetou tal cena desse jeito justamente para enfatizar o sentimento de frenesi: estado de exaltação violenta que põe o indivíduo fora de si + movimentos contínuos de violência. Ou seja: ele quis demonstrar uma luta cruel, que os adversários sequer tinham tempo para respirar enquanto apanhavam, por isso as calhas (espaço em branco entre as cenas) é pequeno. Vocês acham que essa cena enorme e o feeling dela poderiam ser reproduzidos em um webcomic, que possui delimitação de páginas? Acho que quem não estava entendendo antes, agora entende o que quero dizer. 

Aliás, esse negócio de “atributo” misturado com “frenesi” que inventei me lembrou de Ragnarok, to me sentimento a RK (cavaleira rúnica) agora. Ninguém vai entender essa referência, to ficando velha pqp kkkkkk

Uma coisa importante destacar: webtoons estão fundamentalmente vinculados com a forma digital, mas podem também possuir versões físicas, como é o caso de Solo Leveling (que é manhwa e webtoon). Contudo, para que seja publicado em forma física, terá que passar por uma série de modificações.

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Outra coisa legal é que webtoons são disponibilizados online em algumas plataformas oficiais, como por exemplo: Tapas e WebTOON (que antes se chamava Naver WebTOON, daí mudou para LINE WebTOON, mas hoje todo mundo só chama de WebTOON). Em algumas plataformas a maioria dos capítulos são de graça, em outras apenas os 3 ou 5 primeiros não são pagos. Isso depende da política de cada site. Na plataforma chamada WebTOOn, por exemplo, quase todos os capítulos são de graça, porém eles criaram um sistema que o leitor consegue ler capítulos “secretos”. Exemplo: você chegou no capítulo atual, mas existem 3 capítulos “secretos”. O que são esses capítulos? São capítulos que você pode adiantar, mas você paga para adiantar e isso, evidentemente, ajuda o autor.  

Citei apenas 2 plataformas aqui (as mais conhecidas), mas existem várias que são utilizadas como servidores para webtoons. O bom de acompanhar webtoons na plataforma da WebTOON, é que apesar da maioria ser de origem asiática, a plataforma traduz muitos para o inglês. Como inglês é uma língua universal, isso ajuda na divulgação e acessibilidade da obra ao redor do mundo.

Heekyoung Cho chama isso de “Transmidialidade”, uma vez que a filosofia por trás da criação dos webtoons converge com um mundo cada vez mais globalizado. 

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“Outra característica significativa do webtoon é sua transmidialidade. Os webtoons desempenham um papel central na produção cultural transmídia, enquanto são distribuídos por várias plataformas e recriados / co-criados nesse processo. Os próprios webtoons também se tornam plataformas para ligações transmídia, nas quais diversos recursos de mídia convergem para criar novos efeitos estéticos e novos gêneros culturais.”

– Heekyoung Cho

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Exemplos de webtoons:

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  • Figura 1. Título: Solo Leveling. Nacionalidade: quadrinho sul-coreano (manhwa). Forma/Estilo: webtoon.
  • Figura 2. Título: Who Made Me a Princess. Nacionalidade: quadrinho sul-coreano (manhwa). Forma/Estilo: webtoon.
  • Figura 3. Título: The God of High School. Nacionalidade: quadrinho sul-coreano (manhwa). Forma/Estilo: webtoon.

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  • Figura 4. Título: Light and Shadow. Nacionalidade: quadrinho sul-coreano (manhwa). Forma/Estilo: webtoon.
  • Figura 5. Título: I Want to Be You, Just for a Day. Nacionalidade: quadrinho chinês (manhua). Forma/Estilo: webtoon.
  • Figura 6. Título: Revenge of a Fierce Princess. Nacionalidade: quadrinho sul-coreano (manhwa). Forma/Estilo: webtoon.

Outras obras que citei neste tópico como Tower of God e The Virtues of The Villainess,  são de origem sul coreanas (manhwas) e webtoons.


ESQUEMAS ILUSTRATIVOS

Esses esquemas foram criados pela nossa redatora diva Mika. Como é muita informação para vocês absorverem de vez, decidimos criar esquemas ilustrativos para melhor entendimento. Obrigada, Mika! Você não tem noção de como isso irá facilitar a vida das pessoas.

Abram as imagens em outra guia caso queiram visualizá-las em dimensões maiores.

Esquema 1:

imagem horizontal para o blog

Esquema 2:

montagem vertical para o blog

  • NOTA IMPORTANTE:

Como vocês viram durante o post, manhwa e manhuas podem ser tanto webtoon, como webcomic, mas e mangás? Mangás podem ser webtoon ou webcomic? Mangá pode se encaixar no conceito de webcomic, visto que possuem estrutura tradicional e estão paralelamente ligados ao modelo físico – inclusive já citei vários exemplos aqui. Entretanto, mangá e webtoon são essencialmente diferentes, justamente porque webtoons fogem um pouco da filosofia e conceito base da crianção do mangá: tradicionalismo e leitura paginada. Contudo, o céu não é o limite para os japoneses… eles inventaram um novo termo para isso.

O Japão demorou a adotar os webtoons, porque o formato tradicional e a publicação impressa ainda são muito fortes lá. Empresas sul-coreanas estão adentrando no mercado e tentando ganhar espaço no mercado japonês, que é estruturalmente muito tradicional e restrito. Logo: apesar de existir o questionamento se mangá pode ser webtoon, isso ainda é visto como uma espécie de taboo no Japão, já que eles dificilmente abrem mão da tradicionalidade e do termo “mangá”. Logo: eles criaram outro termo para artistas japoneses que decidiram criar histórias no formato de webtoons: webtoon japonês. Confirmei isso com uns parentes que moram no Japão e é isso aí. Esse termo pode mudar daqui uns anos, mas atualmente se algum japonês decide criar um “mangá” em formato de webtoon, na visão deles aquilo não é mangá, é um webtoon japonês. Um grande exemplo é Kochou no Yumeji, que é publicado por uma japonesa no Japão, porém em formato de webtoon. A cá: Webtoon japonês. 

Em suma: eu não tenho fundamento e propriedade para dizer se mangá pode ser webtoon ou vice versa. “Webtoon japonês” foi um termo que os próprios japoneses criaram, essa questão precisa ser estudada com mais afinco por centros acadêmicos de linguagem, uma vez que esse tema é escasso tanto em artigos, como em monografias. 

Akiko Higashimura, mangaká conhecida por obras como Kuragehime, Kakukaku Shikajika e Tokyo Tarareba Musumecomeçou publicar 2 dias atrás (29/04/2020) uma nova série na Piccoma, cujo nome é “Você se lembra de mim”. Piccoma é um serviço de assinatura de mangá japonês que está disponível para smartphonestablets e computadores pessoaisFoi desenvolvido e lançado pela Kakao Japan, a subsidiária japonesa da Kakao (empresa sul-coreana). Ok, mas por que citei essa mulher aqui? Porque fui ver o mangá dela hoje e reparei que se parecia muito com o estilo de um webtoon, inclusive era todo em infinite scroll e a autora fazia o uso efetivo das calhas…

Fotos abaixo:

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Enfim, é webtoon? É mangá? Posso chamar de mangá, mas que possui forma/estilo de webtoon, assim como fazemos em manhwas e manhuas? Infelizmente, não sei. Precisamos de um especialista em linguagem de mídia e narrativa gráfica aqui. 

Estarei acompanhando informações e artigos relacionados ao nosso complicadíssimo “mangá”. Então, pode-se dizer que esse post sofrerá algumas alterações no futuro, visto que essa questão vai muito além do achismo, é necessário um estudo mais aprofundado.  


CONCLUSÃO 

Definir termos é uma coisa complicada até para quem é especialista no assunto, então não espero ser a detentora do conhecimento sobre esse tópico, visto que definições mudam ao longo do tempo. Além do artigo de Heekyoung Cho, usei outras referências que estarão listadas no próximo tópico. Espero de coração que vocês tenham gostado desse post e entendido, porque deu um trabalho desgraçado explicar tudo mastigadinho desse jeito kkkkk

Na verdade, eu não pensei que publicaria um post sobre esse tema. Contudo, senti a necessidade de trazer esse tipo de material para vocês, uma vez que encontrei muita informação errada na internet e poucos sites/blogs falando sobre esse assunto com fundamento. É um tema complicado, demorei muito tempo para entender certos conceitos e li várias monografias ao ponto de pirar,  por isso reconheço a complexidade da linguagem como ferramenta de compreensão e conexão entre culturas.

Tentei interpretar as informações que encontrei da melhor forma possível para transpassá-las de maneira coerente e clara. Logo, espero mesmo que esse post tenha iluminado a cabeça de alguém que estava perdido sobre o assunto.


FONTES

  • The Webtoon: A New Form for Graphic Narrative” –  Heekyoung Cho;
  • “Dos Quadrinhos Para as Telas” – Yasmim Machado Dias (Curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação – UFJF);
  • “Narrativas gráficas como expressões do ser humano” – Roberto Elísio dos Santos (Professor do Programa de Mestrado em Comunicação da Universidade Municipal de São Caetano do Sul e vice-coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP) e Elydio dos Santos Neto (Docente e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista de São Paulo);
  • “Otras opciones con identidad propia: el manhwa coreano” – Ester Torres Simon (Bacharel em Tradução e Interpretação espanhol-inglês-japonês pela Universidade de Barcelona e PhD em tradução e estudos interculturais pela Universidade de Rovira i Virgili);
  • “Mangá: O poder dos quadrinhos japoneses” – Sonia Bibe Luyten (Graduação em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero, mestrado em Ciências da Comunicação pela USP e Doutorado em Ciências da Comunicação pela USP);
  • “Aprendizagem Histórica a Partir dos Manhwas: Um Diálogo Entre a História e as Histórias em Quadrinhos Sul-Coreanas” – Jorciane Moreira de Campos (Curso de Licenciatura em História – UFMT);
  • “Guerra e paz: Uma abordagem dos conflitos nas histórias em quadrinhos” – Bruna Gama Candido (Escola de Comunicação – UFRJ);
  • “A Transmidialidade Como Estratégia Discursiva” – Silvia Maria de Sousa (Professora adjunta de Linguística no Departamento de Ciências da Linguagem e do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem da UFF);
  • “Quadrinhos: História moderna de uma arte global” – Dan Mazur e Alexandre Danner;
  • Um post de um blog chamado Dilema Vermelho que interpretou uma parte do texto da Heekyoung Cho, cujo título era “Webtoon ou Webcomic?”. Li o texto inteiro da Heekyoung na íntegra em inglês, porém achei interessante ter a opinião de outro blog brasileiro sobre o assunto;
  • Wikipédia (sei que não é lá uma fonte confiável, mas foi o que tive à minha disposição em termo de “história”);
  • Se vale como fonte também: fui atrás de gente formada em letras e parentes que moravam no Japão. 

AGRADECIMENTOS

Heekyoung Cho, obrigada por existir. Antes desse artigo, eu estava mais perdida que cego em tiroteio. Queria agradecer também às meninas do blog por terem me aturado durante a construção desse post.

Passei dias confusa, às vezes pensava que tudo era webcomic, às vezes pensava que tudo era webtoon, às vezes pensava que os dois eram a mesma coisa. Foi uma loucura. Em ordem alfabética: Clara, Mih, Mika, Senpai e Xícara, vocês são demais! Valeu por me aturarem todo santo dia surtando no nosso grupo.

Xícara, me desculpe por torar sua paciência e te fazer ter alucinações/déjà-vus enquanto tomava sorvete com seus pais. Dessa vez, decidi torrar grãos pra te fazer um cafezinho.

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kkkkkkkkk


AVISO

Nós não permitimos cópia de nossos textos em outros blogs. Nossos textos são como nossos filhos, ou seja: não toleramos sequestro e muito menos clones. Seu intuito é divulgar x post por que achou legal? Basta mandar o link. 


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– See you space cowboy

23 comentários em “Qual a diferença entre manhwa, manhua, mangá, webcomic e webtoon?”

    1. Mano mt maravilhoso! Estou aproveitando essa quarentena pra realizar um sonho meu e amei seu artigo e me tirou uma grande dúvida, agora sei que o formato que quero realizar minha história é um webtonn brasileiro kkkkk! Vlw! PS: Tb sou mt fã de Gintama!

      Curtido por 1 pessoa

      1. Ahh que bom que esse texto foi de ajuda pra você! Muita sorte pra ti na sua nova jornada! Tô torcendo pra seu sonho dá certo! xD

        P.S: Fã de Gintama? Você tem um ótimo gosto! ❤

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  1. Você deixa replicar com as devidas referencias ao seu site e seu nome com links e tudo mais?

    Esta de parabéns, eu estava pesquisando sobre isso e encontrei seu texto e achei ele tão completo que precisei nem mais pesquisar em outro lugar.

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    1. Olá, boa noite. Pode sim, desde que você cite o nome do nosso blog e coloque o link do meu post. É que deu um trabalho desgraçado fazer essa matéria, li tanto artigo e monografia pra sintetizar tudo e colocar aqui, que quase pirei. Só de lembrar chega tremo kkkkk

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      1. Obrigado! Eu não usarei tudo que você escreveu p fazer os leitores entrarem no seu texto original, mas ficará bom de qualquer jeito e obrigado! Eu aviso assim que sair e voce verá no seu e-mail pelo pingback que acredito que você receba. Aviso. Obrigado mais uma vez!

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            1. Olá, boa noite. Moço, eu gostaria que você apagasse seu texto. Eu pensei que você iria usar meu texto de base para fazer o seu, assim como fiz com os livros e monografias que li, mas foi basicamente uma cópia inteira do meu post. Quando você falou “replicar”, eu não pensei que seria desse jeito. Eu e a redatora que fez os esquemas ilustrativos não nos sentimos confortáveis com isso, então peço gentilmente que você apague. Se seu intuito era divulgar meu post, só mandava meu link mesmo.

              OBS: meus pêsames pela mãe do seu editor. Muita força pra vocês e a família dele.

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  2. Wow, que incrível foi esses post! Eu nn sabia as diferenças entres essas 3 denominações e sempre ficava perdida qt a como usá-los. Eu agradeço muito por ter me ajudado a entender! E como vcc deve ter se esforçado para trazer um assunto completo eu a parabenizo-a!!

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  3. 🤩🤩 obrigado pela explicação! Ainda para mais tão aprofundada!
    Eu já tinha reparado que haviam algumas diferenças mas quando pesquisei online, achei o tema demasiado confuso…. o que eu não entendi ainda é porque é que dentro dos webtoons, alguns sites têm ainda os “originais” e os “Canvas” (como no Line Webtoon).
    Gostava de deixar esta sugestão: recentemente descobri um author de webtoon fantástico: kronkilton. A arte dele é incrível porque é totalmente diferente do que estamos habituados… Ele só tem um pequeno probleminha – nunca ter terminado um comic 😒 (ainda assim vale a pena espreitar).
    Atualmente está a escrever OATH e é sem dúvida dos comics mais engraçados que já li! Apesar de ser um “romance”, a comédia é incrível.
    Outros webtoons que gostei/gosto bastante: I love yoo; a world ruled by cats; The lady and her butler; So I’m in to you;
    Dito isto, era fantástico ler algumas recomendações sobre webtoons também 🤩🙏.

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    1. Olá! Obrigada por comentar aqui ❤

      Sobre essa história que a plataforma do WebTOON fez em relação a Originais x Canvas: quadrinhos “originais” são aqueles que a gente pode encontrar apenas no WebTOON, são pessoas contratadas pela plataforma para fazer quadrinhos. Seu pagamento é baseado no tempo gasto e no desempenho que o comic está tendo. Já “canvas” são quadrinhos que os autores não são contratados pela plataforma, não tem uma pagamento fixo e nem bônus. Entretanto, os autores conseguem ganhar dinheiro com suas obras através do Ad revenue (propagandas), porém precisam ter 1k de inscritos e 50k de visualizações por mês.

      O autor de My Weird Roommate fez até uma explicação rápida sobre isso no cap 134 de sua obra, se você quiser ler tá aqui o link da explicação: https://www.webtoons.com/en/challenge/my-weird-roommate/webtoon-originals-vs-canvas/viewer?title_no=193087&episode_no=140

      OBS: não conheço Kron Kilton, depois vou dar uma pesquisada nas obras dele xD

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