Indicação - anime

Hiroshima e Nagasaki: A arte seguindo a vida

Moshi, moshi, Senpai chegando na área!!!

Olá queridos leitores do Shiritori !!!!!!!!!!

Faz muito tempo que eu não apareço por aqui, anos na verdade, mas eu ainda faço parte dos redatores do blog. (apesar de preferir ajudar nos bastidores do que propriamente dar minha cara a tapa de maneira solo). Mas esse mês eu me senti na obrigação de aparecer para apresentar à vocês algumas obras que retratam um momento muito marcante na história do Japão e do mundo de uma maneira em geral.

Neste ano o Japão relembra os 75 anos das quedas das bombas de Hiroshima (em 06/08/1945) e de Nagasaki (em 09/08/1945), o que culminou com a rendição do Japão em 02/09/1945 e no fim de uma guerra sem precedentes e marcante de diversas e incontáveis maneiras para o mundo como um todo.

Explosão da bomba atômica

Não quero nesse post falar de ganhadores ou perdedores de guerra, afinal, sempre que a humanidade guerreou não temos ganhadores, todos são perdedores de alguma maneira, alguns mais que outros, afinal as consequências de uma guerra atinge todos, sem distinção. A que custo podemos considerar alguém como um ganhador? Para mim o preço é alto demais, apesar de saber que muitas tecnologias e melhorias só foram possíveis por conta da máquina da guerra.

Mas aqui irei ousar em falar que as consequências de um pós guerras podem ser mais impactantes do que a guerra em si, a reconstrução e restauração do que se perdeu é de um valor inestimável. E não falo só de dinheiro ou coisas materiais, falo de vidas humanas perdidas e na forma como passamos a encarar o mundo.

Talvez muitos de vocês não sabem, mas não sou tão jovenzinha assim, então não se assustem quando eu falar que eu já era uma pré adolescente quando vi o primeiro bombardeio televisionado de uma guerra (Guerra do Golfo – 1991), ou que no fatídico 11 de setembro eu estava na faculdade e vi as torres gêmeas virem à baixo ao vivo (e fiquei achando, como muitos, que aquilo não estava acontecendo de verdade).

Muitos de vocês conhecem esses fatos de estudar, mas eu vivi e senti isso e mesmo acontecendo longe daqui essas coisas mexem e fazem a gente mudar, além de passar a enxergar o mundo de uma maneira distinta.

Então imaginem para aquela população de Hiroshima e Nagasaki que sentiram na pele a devastação. de seus seres? Eles nunca tiveram a chance de se defender daquelas bombas e a humanidade chegou num poderio inimaginável: o de se dizimar nações inteiras com um aperto de botão.

Conhecer o que ocorreu ali é uma forma de respeitar e honrar a memória das milhares de pessoas que morreram no momento da queda da bomba, e nas outras milhares de vidas perdidas por consequência da irradiação nuclear; e se lembrar é uma maneira para nunca se incorrer no mesmo erro.

E é justamente pensando nisso que o Memorial da Paz de Hiroshima foi instituído em torno da hoje conhecida como a “ Cúpula Genbaku” ou “Cúpula da Bomba Atômica”. Esse edifício foi originalmente projetado para ser um local de exposição comercial da prefeitura de Hiroshima, mas como o prédio ficou relativamente intacto após o bombardeio a grande maioria da população queria que a estrutura fosse preservada como um memorial daquele acontecimento.

Cúpula Genbaku nos dias atuais

Esse tipo de conservação de estrutura de prédio degradado é difícil de se ver no pós guerra. Na sua grande maioria os grandes prédios históricos que sofreram avarias foram restaurados a sua glória original ou tiveram outros tipos de reconstrução, como a sede da Gestapo em Berlim que teve somente a sua fundação e subsolo preservada e em cima foi construído o  ” Museu da Topografia ao Horror”. Mas no Domo de Hiroshima a sua manutenção na forma em que se encontrava era uma forma de lembrar do luto como um pedaço vivo da história dos sobreviventes, que permaneceu em pé.

Sabem que forma é interessante para se conhecer um pouco dessa história? É através dos animes. Algumas das obras selecionadas abaixo podem ser consideradas por muitos como documentos históricos, visto que foram criadas por Hibakushas e retratam muitas vivências autobiográficas ou não de seus autores. Através dessas obras é possível olhar aquele momento pelo olhar das pessoas que ali viveram, o que sentiram e como encaram as consequências daqueles momentos, sejam com fé, desespero, esperança e porque não arrependimento e amor.

Hibakusha – são os chamados sobreviventes dos ataques nucleares

Então bora conhecer algumas dessas obras e animações?

KAZE TACHINU – Vidas ao Vento

Naoko e Jiro

O primeiro da minha seleção é o filme Kaze Tachinu, ou Vidas ao Vento na tradução para o português. Este filme foi executado pelo Studio Ghibli e lançado em 2013. Escrito e dirigido por Hayao Miyazaki e baseado no mangá de sua própria autoria, esse filme ganhou diversos prêmios e uma indicação ao Oscar de melhor animação.

Este filme retrata (na melhor forma Miyazaki de ser) a história do engenheiro Jiro Horikoshi, um dos projetistas de aeronaves do império japonês durante a Segunda Guerra mundial, e a sua busca por construir e projetar aviões como o pioneiro italiano Giovanni Battista Caproni.

Gosto muito desse filme e da maneira como Miyazaki retrata a vida de Jiro desde a infância, o seu encontro e desencontros com sua esposa Naoko e como ele persegue os seus sonhos para conseguir projetar um avião capaz de trazer glória ao Japão.

Aqui também é possível se analisar a forma como Jiro se arrepende de ter criado algo que pode ferir outras pessoas, e Miyazaki traz os sonhos e arrependimentos de Jiro de uma maneira tão próxima de nossos próprios sentimentos que é difícil não se inspirar nele e em sua história, ou melhor… no próprio bailar do vento (da vida).

Trailer de Kaze Tachinu – Vidas ao Vento

HOTARU NO HAKA – O Túmulo dos Vagalumes

Setsuko e Seita

Seria impossível não falar desta obra que também foi criada pelo Studio Ghibli. Em túmulo dos vagalumes o diretor Isao Takahata empresta sua sensibilidade e vivência com os bombardeios que presenciou em sua infância para trazer ao público uma obra sensível e apaixonante.

Sendo baseada no romance semiautobiográfico de Akiyuki Nosaka, o Túmulo dos Vagalumes foi escrita e dirigida por Isao Takahata, a obra foi lançada em Abril de 1988 e  acompanhamos a história dos irmãos Seita e Setsuko, contada de uma maneira única através do olhar do jovem Seita.

Diferente do que acontece na maioria das histórias esta começa pelo final, mais precisamente em 21 de setembro de 1945, e nos primeiros minutos você já descobre o que ocorre com os irmãos, Derramar alguns litros de lágrimas não é uma opção negociável (eu mesma fiquei desidratada).

É impossível não chorar do princípio ao fim neste filme, mas ele vale cada gota para acompanhar a jornada desses dois irmãos durante os últimos meses da grande guerra. É um filme sutil, tocante e retrata o que aconteceu com tantas crianças e órfãos no pós guerra, algo que nenhuma criança deveria ter vivenciado.

Pelo olhar deles é possível se encontrar o brilho e a luz de esperança de dias melhores, mas ainda não sou capaz de responder a pergunta da pequena Setsuko, afinal porque os vagalumes tem que morrer tão cedo? Eu sinceramente não sei.

Trailer de Hotaru no Haka ou O Túmulo dos Vagalumes

HADASHI NO GEN – Gen pés descalços

Gen pés descalços

Este mangá é uma autobiografia de  Keiji Nakazawa, um Hibakusha. Foi publicado em diversas revistas entre os anos de 1973 a 1985, e em 1983 virou um anime.

Conta a história de Gen, um garoto de seis anos que vive com a sua família em Hiroshima e luta para sobreviver aos efeitos da guerra, entre eles a escassez de recursos e a desnutrição, o que põe em risco a mãe grávida. Em 1986 ganhou uma continuação mostrando Gen já adolescente e a sua luta para sobreviver num Japão em reconstrução.

O trabalho de Nakazawa não tem traços tão elaborados ou delicados, mas é marcante a forma como se faz o uso das cores e suas tonalidades para compor e contar cada momento da história de uma maneira crua, cumprindo o papel de elucidar ou atenuar cada passagem histórica vivenciada pelo personagem. No anime é possível se ver a predominância das cores quentes  no momento da queda da bomba (principalmente o uso do vermelho e o laranja). O efeito sonoro, ou a falta do som também é muito bem utilizado neste anime.

Mas tudo o que eu disser aqui não irá lhe preparar para as cenas que aparecem após os 31 minutos de filme. A partir desse ponto, quando a bomba cai sobre a cidade, você começa a questionar se o que está vendo é aquilo mesmo, mesmo sendo uma animação você sabe que tudo foi real. Se você é sensível eu aconselho que não veja esse filme, ou se ainda quiser ver se prepare para as cenas retratadas ali. 

Não tem sangue ou algo que represente isso, mas mesmo assim está ali e você é capaz de sentir as pessoas e coisas virarem simplesmente nadas (e se você achar que o que você está vendo é uma determinada coisa pode ter certeza que você está certo).

Apesar de o anime retratar o passo a passo deste momento histórico de maneira crua me surpreendi com o fato dele não dar tempo para você pensar ou entrar em luto, ou até pensar ou lutar por remorso. Isso ocorre devido ao dinamismo dos acontecimentos, e na sua grande maioria foi por conta do personagem Gen em sua forma de enxergar o mundo, além dos momentos de descontração infantil, próprios da idade. Esse recurso ajudou muito a conseguir mostrar o que aconteceu, sem precisar focar no horror daqueles dias, e sem deixar de falar que eles existiram.

Por esses pontos e recursos usados é que esse anime deve ser reconhecido como uma jóia viva, uma forma sutil e essencial para se conhecer a história das bombas. Além de quê o pequeno Gen é uma inspiração que não se abate, mesmo convivendo diariamente com a morte e lutando por um sustento ainda mais difícil e precário.

Talvez só posso desejar que todos sejam como o trigo, que começa a vida numa estação fria, sofre com o golpear da chuva, o arrastar do vento, e muitas vezes é esmagado em nossos pés, e apesar de tudo isso consegue estender suas raízes até crescer forte, sobrevivendo sobre as adversidades. 

E é assim que o pai de Gen o ensinou a viver. Belo exemplo não é mesmo?

Filme Hadashi no Gen

Letters From Hibakusha – Cartas dos Sobreviventes

Os três animes abaixo são o resultado de um projeto da emissora NHK em 2007, que reuniu histórias de sobreviventes do bombardeio atômico e os adaptou para anime. Foram escolhidas três histórias sendo “Yaman e no Tegami” (Carta a Yaman), “Anata ga Ite, Watashi ga Ite” e “Chichi to no Wakare”. São animações curtas que buscam representar os sentimentos dos Hibakusha sobre o bombardeio.

Somente encontrei as animações legendadas em inglês, mas mesmo que você não consiga ler/traduzir as imagens falam por si, e vale a pena conhecer esses sentimentos.

São animes curtos mas carregados do sentimento do momento, como se fossem mesmo cartas lidas e são belas homenagens aos que se foram de maneira tão trágica.


Kono Sekai no Katasumi ni – Neste canto do mundo

Suzu

Kono Sekai no Katasumi ni é um filme do diretor Sunao Katabuchi (ex-Studio Ghibli) lançado em 2016 e baseado no mangá homônimo de Fumiyo Kouno que foi publicado entre os anos de 2007 a 2009 na Weekly Manga Action.

Temos aqui a história de Suzu Urano, uma garota de dezoitos anos que por conta do casamento se muda para Kure, cidade há uma hora de Hiroshima.

Suzu é uma hábil desenhista e luta para se adaptar ao cotidiano de trabalho na casa junto da família de seu marido, ela começa a ir vendo o seu mundo pacífico ser mudado gradativamente conforme a guerra chega mais próximo de seu quintal.

A história vai se desenrolando como num diário, com datas que vão nos aproximando dos fatos que culminaram no ataque à bomba atômica em Hiroshima, mas diferentemente do que ocorre nas história de Gen pés descalços e o Túmulo dos Vagalumes o sofrimento não é o mote da história. Ousadamente ele é recheado com cenas cotidianas, picuinhas do dia a dia e certo pontos de humor. Como num “slice of life” as cenas vão mostrando o dia a dia daquelas pessoas, racionamento de comida, morte, ficar sem dormir por conta de bombardeios, casamento arranjado, ser acusado de espionagem pela polícia e morrer de rir em seguida.

É possível observar muito da escola de Katabuchi neste filme (trabalhou em O Serviço de Entregas de Kiki no Studio Ghibli), já que ele usa da sutileza e arte primorosa da animação, misturando as cenas com os desenhos da própria Suzu. Ao usar esses recursos é possível se mostrar como a guerra e a vida doméstica japonesa estavam intrínsecas e como a personagem lidava com todos os sentimentos a transformando completamente humana aos nossos olhos.

Deixo com vocês a indicação do post da Finisgeekis que tratou com  propriedade sobre esse anime:

Kono Sekai no Katasumi ni”: a geração que não sabia ver
Trailer de Kono Sekai no Katasumi Ni – Neste Canto do Mundo

Ufa, fizemos um pequeno tour no passado e nos sentimentos dos Hibakushas, espero que tenham gostado das indicações acima e adoraria saber a opinião de vocês sobre o tema!

Sei que existem muitos filmes que retratam os ataques nucleares e a segunda guerra mundial, (assim como documentários bem executados) mas a forma que enxergamos os efeitos da guerra e da bomba atômica depende da visão cultural com o qual foram produzidas. Assim como na cultura oriental temos a criação de heróis como Peter Parker e sua mordida de aranha radioativa, no Japão nos deparamos com Godzilla e sua forma monstruosa.

A verdade é que sem os ataques nucleares contra Hiroshima e Nagasaki o famoso Godzilla não seria criado com a imagem que foi, com suas cicatrizes e características de pele fazendo referência aos Hibakushas, talvez ele existisse, mas de maneira diferente. Mas independente da maneira que ele teve origem, hoje o lagartão (ou dragão?) é um dos símbolos japoneses.

Espero que, para aqueles que não tinham conhecimento ou uma visão diferente possam agora compreender o que aconteceu em nosso passado, afinal eu desejo que esse tipo de episódio nunca mais se repita na história da humanidade.

Mas eu sou como aquela velha canção de John Lennon, eu imagino que todas as pessoas vivam em paz, e você pode dizer que sou uma sonhadora, mas isso é o que quero, de todo o coração.

Então até mais, pois logo irei te alcançar… montada no vento da vida.

7 comentários em “Hiroshima e Nagasaki: A arte seguindo a vida”

  1. Tinha que ser a Senpai mesmo pra conseguir falar de um tema tão pesado de uma forma tão gentil e elegante. Demorei pra ler o post direitinho porque achei que ia chorar, mas não chorei! (e o Godzilla foi o toque de mestre)
    Mas, se me permite a cara de pau, eu vou passar longe de Gen Pés Descalços tá kjdvkfjksf (Túmulo dos Vagalumes já foi demais pra mim e olha que eu nem lembro dele direito porque faz muito tempo que vi).

    Curtir

  2. Adorei a matéria! Não tinha muito o costume de consumir obras de animes/mangás com contexto histórico. Sempre acabei consumindo esse tipo de material por documentários. Mas acredito que está mais que na hora de começar a ver esse tipo de obra. Anotei todas suas indicações e pretendo vê-las o mais breve possível.

    Curtir

    1. Oh Ingrid, que bom que gostou, espero que goste das indicações e vá com o seu coração aberto e preparada para lágrimas. O bom do anime é que ele consegue ir fundo na história ainda mantendo
      a magia do anime. Depois conta mais o que achou. Bjs

      Curtir

  3. Como eu já te disse antes Senpai, minha família romani sofre com os ecos do pós guerra até hoje e sempre evito consumir coisas sobre o assunto pois é sempre doloroso, mas…Quanta delicadeza! Tão leve, sutil e respeitoso. Lindo texto, linda homenagem, me deixou verdadeiramente emocionada, parabéns ❤

    Curtir

    1. Eu que tenho que te agradecer por me ajudar com o feedback e apoio, eu queria algo sério mas sutil ao mesmo tempo, fico feliz por ter atingido isso e por ter respeitado o passado, e reverencio o passado de sua família também. Obrigada!

      Curtido por 1 pessoa

  4. Senpai, esse foi um post simplesmente incrível! Gostei bastante das recomendações e dos conhecimentos novos adquiridos por causa do texto (fora o .gif do Godzilla colocando óculos escuros, aquilo me pegou de surpresa kkkkkkkkkkkkk). Novamente, ficou muito bom, eu com toda a certeza vou voltar diversas vezes aqui, tanto para reler o que você falou sobre os animes recomendados antes de assistir quanto para reler o post em si.
    Enfim, até a próxima Senpai 😀

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada Deku!!! Fico feliz que tenha gostado e aprendido um pouquinho mais sobre a história e depois me conta sua perspectivas sobre os animes… Quanto ao Gif do Godzilla eu achei hoje de manhã as 7 horas antes de ir trabalhar, até eu fiquei surpresa kkkk
      Até a próxima

      Curtir

Comenta aí, meu povo!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s