Assuntos gerais

Uma perspectiva diferente sobre mangá shoujo

Olá, como vai? Tudo ótimo? Tudo bem?

Dei uma sumida do blog por um tempo, mas voltei aqui rapidinho pra publicar esse post. Não vou estar aqui com tanta frequência, porém de vez em quando pode ter um post novo meu. Tive uma certa relutância em escrever esse texto, mas espero que vocês gostem. 


Sempre gostei muito de mangá shoujo. Também gosto de outras demografias, mas confesso que tenho uma paixão imensa por essa. Na verdade, eu nem sei o real motivo disso. Na medida que ia amadurecendo e, consequentemente, me tornando mais crítica nas coisas que lia, percebi algo que me entristeceu bastante. 

Não sei por qual motivo, mas sinto que essa demografia empobreceu. Muita gente pode me xingar ou simplesmente não concordar comigo, porém espero que vocês leiam esse post com a mente aberta e o coração também. Espero que tentem entender um pouco do que senti sendo uma leitora assídua de mangá shoujo através dos anos. 

Mas, afinal… o que seria empobrecer?

Limitar o enredo? Negligenciar assuntos importantes?

Ter um ponto de vista monocromático?

Talvez seja tudo isso e mais um pouco. Como uma boa fã de mangá shoujo, principalmente dos antigos, eu notei que os shoujos atuais empobreceram não porque a maioria se trata de paixões adolescentes ou gira muito em torno do romance. Descobri que o problema não era esse. O problema não é um enredo focado em amor romântico, mas sim esquecer de abordar o amor próprio. Isso foi uma coisa que mexeu bastante comigo quando notei. 

Alguns mangás nos fazem lembrar que shoujo não é só romance e que a vida não é feita apenas de amores, flores e glitter.

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Cat Street (Yoko Kamio)

Logicamente, não vamos generalizar. Não estou falando que todo shoujo atual mergulhou em um poço de futilidade. Estou dizendo, através da minha experiência, que a maioria se tornou genérico e sem muito aprofundamento social. Isso é algo que me corta bastante, porque parece que estou lendo obras maquiadas. 

Ótimo, acabei de inventar um bom termo:

OBRAS MAQUIADAS.

O que são isso? São obras que servem para entreter, mas não para mostrar a realidade por trás dos bastidores. Faz até um pouco de sentido esse tipo de material vender. Afinal, por que as pessoas leem histórias fictícias? Provavelmente porque a ficção é melhor do que a realidade. Isso é senso comum, mas não significa que precisa virar regra.

O que me incomoda é que esse tipo de enredo simplório, em que o único objetivo da protagonista de mangá shoujo é ficar com o cara que ela gosta, está se tornando algo natural e genérico. Nada contra obras assim, acho algumas até fofas e divertidas, mas poucas agregam algo em minha vida. Eu posso, com firmeza, afirmar que a grande e esmagadora maioria dos mangás atuais dessa demografia giram em torno dessa perspectiva distorcida de felicidade. Isso é algo que realmente me entristece e incomoda.

O fato de eu ser fascinada por mangá shoujo antigo é simples: esse tipo de abordagem é muito menos frequente. Notem que escrevi “muito menos frequente”, mas não afirmei que não existe. Sempre vai existir alguma exceção. Eu, inclusive, já falei isso em um post anterior. O encanto que sinto por obras antigas é que boa parte delas, pelo menos das que eu li, parece ter uma perspectiva diferente de felicidade – além de abordarem questões sobre liberdade, identidade e aceitação.

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Kaze Hikaru (Taeko Watanabe)

Talvez isso esteja relacionado com a época em que vivemos, já que os anseios e necessidades que possuímos hoje são diferentes do passado. A mulher conquistou muita coisa desde então. Mas aliás, problematizando um pouco: por que infernos a gente se acostumou a pensar que quase toda protagonista de shoujo tem uma vida familiar boa e estável? Por que a gente se acostumou a pensar que só o cara é cheio de trauma e a protagonista é quem precisa ser aceita por ele?  

Protagonista feminina de shoujo não tem problemas também?

E se tiver, quem resolve os problemas dela? 

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MARS (Fuyumi Souryo)

Inconscientemente, a gente abraçou a ideia de que protagonista feminina de shoujo precisa ser boa moça e ter uma vida normal, sem problemas ou abusos. No fim das contas, esse aspecto se tornou essencial nesse tipo de narrativa, porque só assim ela teria condições de correr atrás do cara quem ela gosta e ajudar a resolver os problemas dele. Logicamente, não são todos shoujos que são assim e existem exceções, mas vocês percebem o quanto isso é… machista? Essa ideia de que mulher precisa correr atrás de homem ou que precisa “segurar” homem ainda existe. Como por exemplo em detalhes pequenos como esse, que a gente raramente percebe.

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Foda é que esse enredo genérico acaba criando um preconceito em relação à demografia e afastando outros públicos, pois as pessoas acabam a julgando como limitada, por isso hoje em dia – apesar de shoujo ser destinado para o público feminino – é comum encontrar muita menina se interessando por shounen, mas não o contrário. Garotos geralmente evitam esse tipo de demografia, alguns porque têm preconceito e sequer tentam conhecer, outros porque acham que shoujo é tudo igual. Tá aí uma frase que já ouvi muitas vezes em minha vida: “Shoujo é tudo igual”

O que quero chamar atenção aqui é que antes de ser menino, menina, homem ou mulher, pessoas são pessoas. Meio redundante, não? Pois é. Pessoas são pessoas, logo: são humanos. Todo mundo tem problema, independente de gênero e isso é algo que, por mais que seja de senso comum, pouco é explorado em mangá shoujo. Raros são aqueles que abordam isso.

E quando abordam… a gente passa a enxergar o mangá com outros olhos, porque não é mais só um meio de se entreter, mas também de se identificar.

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Hirunaka no Ryuusei (Mika Yamamori)

Quando o mangaká consegue dar vida aos seus personagens em um desenvolvimento que não foge muito da realidade, eu fico deslumbrada. Isso é algo que eu gosto e respeito bastante em alguns shoujos, justamente porque é uma das demografias que estão mais perto da realidade social das pessoas. No fundo, talvez este seja o real motivo de eu ter me apaixonado tanto por shoujo, muito embora eu o esteja criticando aqui. Afinal, é comum nesse tipo de obra a gente começar se questionar sobre relacionamentos humanos e sobre nós mesmos. 

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Principal (Ryou Ikuemi)

Apesar desse post parecer uma espécie de desabafo, quero mostrar pra vocês, nem que seja um pouco, que shoujo não é só romance. É uma demografia que abrange vários horizontes e que não deve ser menosprezada. O que estou criticando aqui é o fato de terem colocado essa demografia dentro de uma caixa pré-selecionada com ideias e parâmetros impostos pelo mercado editorial. Infelizmente, isso vende. Esse assunto também engloba o estigma de que preconceitos transcendem épocas e marcam sociedades. Logo, obras antigas não estão isentas de assuntos como machismo, cultura do estupro e fanservice exagerado.

Outra coisa que notei durante esses anos está relacionado ao papel da amizade. Podem reparar, atualmente a amizade em shoujo se tornou algo um pouco vazia… não sei explicar ao certo, mas na maioria (não em todas) das obras antigas que li eu consigo enxergar a amizade como um pilar na vida dos personagens, enquanto que em obras atuais a amizade se tornou algo quase que irrelevante, descartável e limitado. Além de sempre relacionarem com o clichê do roteiro com amigos de infância (que se tornam namorados no final).

No meu caso, eu gosto de mangás que retratam a amizade com mais aprofundamento. Não como um assunto de plano de fundo que pode ser substituído por qualquer coisa, mas sim como um apoio que ajuda a desenvolver os protagonistas. 

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Cat Street (Yoko Kamio)

Há quem irá me julgar depois de ler esse texto, mas confesso que não estou me preocupando muito com isso. Inclusive, na época que usava twitter, até encontrei uma pessoa que me disse que eu estava sendo muito crítica em relação à shoujo, que eu não deveria exigir muito desse tipo de demografia desde que ela era direcionada para adolescentes. Eu achei esse argumento muito estranho e daí comecei me questionar… O que Hayao Miyazaki responderia se alguém dissesse que seus filmes deveriam ser menos profundos por que seu público é infantil? 

E isso me lembrou de uma entrevista dele falando sobre o quanto cineastas que fazem filmes infantis têm medo do silêncio. Eles têm medo que as crianças achem o filme chato e parem de assistir, por isso a maioria dos filmes infantis são frenéticos. Porém, Miyazaki defende a ideia de que crianças não devem ser subestimadas, pois elas entendem intuitivamente que o mundo em que nasceram não é um mundo abençoado. Por isso, ele acredita que por mais que seus filmes sejam profundos, as crianças eventualmente vão entender.

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Usemono Yado (Hozumi)

Eu também compartilho da mesma opinião quando se trata de mangá shoujo. Criar esteriótipos é uma coisa ruim, limitar o senso crítico do público alvo mais ainda. No mínimo, sendo um pouco rude, acho esse tipo de pensamento bem medíocre. Também possuo a opinião de que antes de alguém tentar ser feliz com outra pessoa, ela precisa tentar primeiro ser feliz consigo mesma. Por esse exato motivo e outros, que o mundo tá cheio de gente infeliz, já que as pessoas tentam buscar a felicidade nos outros, mas não nelas mesmas. Bem, essa é apenas minha opinião sobre o assunto, já que vi muitos relacionamentos desmoronarem assim, apesar de que existem exceções e eu as respeito. Comparando um pouco com o mundo dos mangás e literatura… acontece quase a mesma coisa, porém em dimensões diferentes. 

E o motivo disso acontecer é simples: inconscientemente, as pessoas criam personagens fictícios se baseando no que elas conhecem e entendem da vida. Nesse quesito, o ser humano é bem interessante porque às vezes a gente não se aceita, mas mesmo assim queremos ser aceitos pelos outros. Infelizmente, poucos autores retratam esse tipo de contradição.

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Principal (Ryou Ikuemi)

Sei lá, posso está sendo muito crítica ou quem sabe até chata demais. Contudo, eu ainda defendo a ideia de que mangá shoujo não se trata apenas de romance e que o enredo não precisa ser genérico desse jeito. Gosto de shoujo e vou continuar gostando através dos anos, mas confesso que sempre vou ter uma queda por obras antigas, já que boa parte delas não escondem as falhas dos personagens com filtro cor de rosa. Isso de fato é uma coisa encantadora, porque as pessoas são aceitas na medida que abraçam suas falhas e abrem seus corações.

Isso me lembrou até de algo engraçado. As pessoas sempre me perguntam: porque você é tão fanática por Akatsuki no Yona? O que esse mangá tem de tão bom? Resposta: ele foge totalmente dos parâmetros de shoujo genérico ao ponto das pessoas lerem e falarem quase sempre a mesma coisa: “é um shoujo que não se parece shoujo”. Alguns consideram essa frase uma espécie de insulto, outros lidam como elogio. Eu, particularmente, gosto dessa frase porque me remete ao conceito de que é uma obra que está fora do padrão da indústria atual… de que shoujo é só sobre romance e príncipes encantados.

Akatsuki no Yona é uma história baseada em uma princesa fraca que se tornou forte. Tem romance? Tem, mas os temas principais são amizade, coragem e força. É um shoujo que exala feminismo.

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Akatsuki no Yona (Mizuho Kusanagi)

Esses temas são bemmm negligenciados nesse tipo de demografia, assim como problemas relacionados com aceitação. Isso envolve questões sobre a personalidade da pessoa, as dificuldades que passou na vida, desafios, mudança e etc. Aceitação é uma coisa difícil de se lidar na vida real e de se abordar em mangás, porque existem “coisas” que por mais que a gente tente, não conseguimos alcançar com as mãos.

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Eu gosto muito dessa metáfora das mãos, pois se existem situações que não conseguimos alcançar o que queremos com elas, nós precisamos usar outra alternativa que apele para a autoconsciência. Eu respeito muito mangakás que conseguem retratar isso em suas obras e de alguma forma mudar minhas perspectivas sobre as pessoas e o mundo, já que se as pessoas mudam… o mundo consequentemente muda também.

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Bambi to Dhole (Ai Okaue)

E eu simpatizo com essa ideologia otimista de mudança, porque as pessoas evoluem na medida que aceitam suas falhas e tentam melhorar.

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Bambi to Dhole (Ai Okaue)

Eu sinto muita falta disso nos mangás shoujos atuais: esse sentimento de querer conquistar um lugar no mundo e de querer ser aceito. A vontade de querer mudar por você e não pelos outros é algo primordial que faz o ser humano evoluir constantemente, não porque a pessoa/personagem quer um namorado ou porque quer parecer atraente para os outros, mas porque quer sentir orgulho de si mesmo, de quem é. Infelizmente, não consigo sentir esse tipo de feeling na maioria das protagonistas de shoujo atuais, talvez porque o desenvolvimento seja raso. E tá aí uma coisa que me deixa bastante frustrada, já que essa demografia tem um potencial enorme, mas comumente é usada como receita de bolo universal: mesmos procedimentos e ingredientes. Porém, não podemos esquecer que também existe um fator importante: às vezes a gente acaba culpando os mangakás pelo desenvolvimento de um enredo genérico, mas esquecemos que pode acontecer o contrário: a demografia não ser limitada, mas o lugar onde essas obras são publicadas ser o limitante.

Enfim, e você leu tudo até aqui, muito obrigada. Espero que esse texto tenha ampliado um pouco seu ponto de vista sobre o tema. Nunca fui do tipo de idolatrar as coisas que gosto sem tentar criticá-las, mesmo que isso venha a desencadear uma perspectiva não muito bonita. No fundo, acho que isso faz parte do processo de entender uma obra ou assunto. 

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NOTA: Esse post não é uma fight entre shoujo antigo e shoujo atual, por isso existem imagens tanto de obras novas como antigas. Esse artigo foi uma crítica que fiz a essa demografia no geral e no que senti através dos anos. Sei que existem exceções, tudo na vida tem exceção, mas isso ainda não diminui o fato de eu estar infeliz com o rumo que a indústria está seguindo. “Ah mas shoujo sempre foi assim”, pois é, mas isso não significa que eu precise me acostumar. Como disse no post, eu amadureci com o tempo e isso mudou bastante o modo como enxergo as coisas hoje em dia, por isso decidi ser poliglota para poder ler as obras que gosto sem ser limitada pelo português. Devido a esse fato, conheci os manhwas (quadrinhos coreanos). Alguns são destinados ao público feminino (a cá, shoujo coreano – não sei o termo correto para isso), sendo que esses “shoujos coreanos”, apesar de terem a mesma demografia que os japoneses, acabaram me interessando mais do que alguns que estão sendo lançados atualmente no Japão. Motivo: estilo de vida, aprofundamento, histórias que fogem do clichê e etc. É tudo uma questão de perspectiva e eu, sinceramente, espero que as pessoas possuam maturidade para entender isso.

Estou sempre aberta para novas opiniões e críticas construtivas ou ideias que podem agregar algo neste post. Caso faltei explanar sobre algum assunto, por favor me avisem nos comentários, pois ficarei muito feliz em ouvir a opinião de vocês e discutir sobre o tema.

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FONTES:

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AVISO

Nós não permitimos cópia de nossos textos em outros blogs. Nossos textos são como nossos filhos, ou seja: não toleramos sequestro e muito menos clones. Seu intuito é divulgar x post por que achou legal? Basta mandar o link. 


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– See you space cowboy

17 comentários em “Uma perspectiva diferente sobre mangá shoujo”

  1. Parece aqueles textos de redação que a pro usa como exemplo. Muito bom! Também concordo, histórias são meio que um jeito de compartilhar a sua visão de mundo por meio de um enredo e tá cada vez mais dificil achar personagens reais, histórias reais. O desenvolvimento da grande maioria de mangás/animes e webtoons é sempre 2d sabe. Nunca parece algo tridimensional. Quase nunca aparecem personagens com defeitos, falhas e algum amadurecimento. Enfim, espero mais textos do tipo, pq ficou mt bom!. 😉

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, muito obrigada por comentar aqui! Fico feliz que tenha gostado do post e capturado a essência do que eu quis dizer, ri demais do “Parece aqueles textos de redação que a pro usa como exemplo” kkkkkk

      Infelizmente, a maioria dos mangás shoujos têm um enredo genérico com personagens genéricos e uma visão um pouco machista, o que me incomoda bastante. Não é porque “enjoei de mangá shoujo”, se fosse assim não gostaria mais de manhwas (quadrinhos coreanos) que são da mesma demografia. Lá a maioria das mulheres são mais fortes, independente, têm problemas, não são perfeitas e a vida não gira em ficar correndo atrás de homem, elas têm seus próprios sonhos. Lógico que em mangás também tem isso, mas são poucos, raros, o que me fez entristecer e gostar mais de quadrinhos coreanos.

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  2. (Comentando aqui a pedidos da senhora Mih hahaha)

    Primeiramente: jantou cedo, hein hahahaha

    Não, mas sério, gostei muito do teu texto, Sáh, acho que é bem por aí mesmo, essa questão do “esvaziamento” do shoujo já não é de hoje, infelizmente.

    Quando a gente vê que no início do shoujo os autores eram homens escrevendo para meninas e mulheres, com toda aquela coisa idealizada de como seria ser uma mulher, expectativas de relacionamento e família etc e que os mangás que vieram depois foram feitos POR mulheres, dá pra ver como teve uma mudança nas perspectivas — em especial porque veio num período próximo a segunda onda do feminismo, que teve impacto no Japão, apesar de a gente não ver muitas discussões a respeito disso.

    Aí rola um crescimento no apelo do shoujo, se torna algo mais consumido, mais comercial e… assume o aspecto de enlatado. Escrever uma história com traço bonito (tá, tem assistentes, a gente sabe, mas mesmo assim, né?), com narrativa que faça sentido, entregue dentro do prazo, pra ser editada na revista e aí encaminhada pra todo o processo editorial, isso a cada semana, 14 dias ou mensalmente… É uma parada que se torna abusiva com o pessoal mangaká, e acho que é uma das razões pra se ter esse esvaziamento nas discussões.

    Você tem que ter o produto pronto para entrega em pouquíssimo tempo, suprindo expectativas, e aí são poucas as autoras que entregam algo fora da caixinha, já que não se tem tempo pra desenvolver de fato a ideia antes da execução dela.

    Isso não é um problema só do shoujo, acredito, o mesmo rola com o shounen, por mais que alguns se destaquem e role aquele machismo básico de se pensar na narrativa de shounen como algo mais “universal” (isso nem existe, meu pai) só por ser pra garotos, o que torna tais histórias mais conhecidas etc.

    Acabei deixando de consumir shoujo (e shounen) muita das vezes por conta desses problemas, já que se torna difícil peneirar obras que tenham algo mais do que superficial do grosso produzido em massa — então fico feliz que você tenha trazido tantas recomendações, já vou anotar tudo pra poder ler e curar minha “ressaca” hahahaha

    Parabéns de novo pelo texto, achei ele muito necessário pra discussão que a gente tem de ter hoje sobre o assunto!

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    1. aaaaaaaaaaaaaaa muito obrigada por comentar aqui!

      Sabe o que eu acho? Eu acho que antes de postar alguma coisa aqui no blog, eu preciso primeiro escrever meu texto e discutir com algumas pessoas sobre o assunto, porque às vezes esqueço de abordar temas importantes ou comentários que são gatilhos para outras abordagens.

      Por exemplo, após ler seu comentário, percebi que no meu texto acabei não abordando temas como o papel da família, a perspectiva da leitura “descartável” e de como as revistas acabam influenciando na publicação de um mangá shoujo. Às vezes a gente acaba culpando os mangakás pelo desenvolvimento de um enredo genérico, mas esquecemos que pode acontecer o contrário: a demografia não ser limitada, mas o lugar onde essas obras são publicadas ser o limitante. Isso é um aspecto interessante que eu, infelizmente, acabei não abordando com aprofundamento. Eu tenho um sério problema com escrita, pois nunca me contento em escrever um texto meia boca, parece que quase tudo que escrevo nesse blog tem que ser “completo” ou algo quase semelhante a um artigo mesmo. Gostaria de ter conversado com você antes de o ter publicado, sinto que ficaria mais completo desde então xD

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      1. (grito interno infinito porque você me respondeu!!!)

        Olha, pior que isso de a gente “culpar” quem produz a obra por certos problemas e “esquecer” da parcela de responsabilidade do mercado, editora, editores de texto etc acaba sendo mega normal porque a própria mídia cria essa ideia pra gente de que a única pessoa responsável por uma história é quem tem a autoria dela, né?

        E no caso do mercado japonês, que tem aquele apego de não passar uma obra pra outra pessoa fazer, “o mangá morre com o autor” e tal, acho que essa visão de “obra 100% autoral” fica mais forte.

        (Acho que só passei a pensar mais nesse aspecto porque comecei a atuar como editor, porque antes pensava que todos os problemas (e méritos também) de uma obra eram da pessoa autora — mesmo lendo Bakuman, isso não me entrava na cabeça, e olha que o negócio é mastigado! hahaha)

        Mesmo assim curti muito seu texto, acho que é normal precisar polir depois porque as perspectivas mudam — sem contar que é melhor postar um texto não totalmente perfeito, mas completo, do que ficar com o texto perfeito só na cabeça. =)

        Provavelmente tem livros melhores (e produzidos por pessoas dentro do mercado japonês), mas tem um livro que talvez te interessasse, “Mangá” do Paul Gravett, ele estuda quadrinhos e aborda alguns aspectos sócio-culturais do mangá enquanto reconta como alguns dos gêneros e demografias se desenvolveram. Tem uns orientalismos bostas no meio, infelizmente, mas como material inicial de estudo acho que dá uma força, caso queira olhar outras paradas e tal.

        Enfim, é isto, fico feliz que meu comentário te ajudou! ❤

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        1. Eu quero muitooo ler esse livro!! Já me indicaram bastante ele! Na época, eu acabei lendo “Mangá: O poder dos quadrinhos japoneses” de Sonia Bibe Luyten, porque precisava escrever uma matéria sobre a diferença entre manhwa, manhua, mangá, webcomic e webtoon. Um amigo acabou me indicando bastante esse livro do Paul Gravett, mas acabei deixando de escanteio, porque eu li tanto artigo e monografia pra escrever esse post que por um momento eu até pensei que era da área de humanas (quase pirei) kkkkk

          Caso queira conhecer esse post, tá aqui, foi quase um parto: https://shiritorii.wordpress.com/2020/04/29/qual-a-diferenca-entre-manhwa-manhua-manga-webcomic-e-webtoon/

          Sobre Bakuman: amo!! É um dos poucos animes que realmente agregaram algo em minha vida, pois trazem um conteúdo de qualidade. Depois fala com a Mih pra parar de te proteger e te apresentar devidamente à minha pessoa, bora conversar mais sobre esse universo doido que rege os animes/mangás/manhwas/livros/etc. Eu sou bem viciada em tudo isso, mas isso eu acho que você já deve saber xD ashuashuash

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  3. Eu costumava consumir muitos shoujos, fosse anime ou mangá e parei por sentir justamente isso com as obras mais recentes. Agora que estou voltando a me reconectar com o gênero aprecio achar espaços abertos pra conversa e pessoas que possam me recomendar títulos que me ajudem a voltar a ler. Pra continuar a conversa, tenho dois comentários somente. Primeiro não acretido que se deva encontrar a felicidade e uma autoestima antes de encontrar relacionamentos que proporcionem isso. Na minha opinião, dizer isso é o mesmo que dizer que alguém que ainda não encontrou essas coisas dentro de si não tem capacidade de ter um relacionamento saudável, que qualquer relacionamento que essa pessoa tenha vai ser arruinado por que ela não se ama. E a outra coisa é que acredito que precisamos ter cuidado ao falar de feminismo em Akatsuki no Yona. Eu não li tudo, fui até o volume 7, mas senti que o feminismo da história é muito tópico, que é colocado intencionalmente em momentos específicos, mas difícil de observar no backgroud da história.
    Enfim, muito obrigada pelo post, extramente necessário para leitores de shoujo e de mangás em geral.

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    1. Ahhh obrigada por comentar aqui! Eu gosto quando alguém traz alguma crítica construtiva pra meu post! Eu decidi abordar essa questão da felicidade depois que tive uma conversa com minha psicóloga sobre o assunto, ela me questionou sobre como eu conduzia meus relacionamentos. Não é o caso de entrar em detalhes sobre minha vida, mas quando eu disse “antes de alguém tentar ser feliz com outra pessoa, ela precisa tentar primeiro ser feliz consigo mesma” foi no sentido da pessoa se autodescobrir. Existem relacionamentos que as pessoas acham que a felicidade do outro é sua felicidade ou que ela precisa tá com alguém pra ser feliz, lógico que relacionamentos assim podem dar certo, afinal: quem sou eu pra ditar a felicidade dos outros? Eu até hoje nem sei direito o que é felicidade, mas comecei entender um pouco quando comecei me enxergar por dentro, por isso eu disse que era minha opinião, mas jamais escrevi que era uma regra. Esse assunto é bem delicado mesmo.

      Sobre Akatsuki no Yona: esse mangá é muito bom. Sério, eu nunca fui tão devotada a um mangá shoujo em minha vida. Já tem 33 volumes, eu recomendo muito que você leia. Infelizmente, o arco atual não está me agradando muito, mas a história em si é muito boa. Foge do shoujo clichê e eu gosto do modo que a Kusanagi-sensei explora os lados fortes e fracos da Yona. Eu simpatizei com essa obra porque eu consigo enxergar uma menina real na história, já que em mangás as personagens parecem ser ou muito fracas ou muito fortes, em AnY ela consegue ser os dois e eu gosto desse lado humano da história.

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      1. Eu sempre fico sensível com esse tipo de comentário porque é o meu caso. Eu tenho muitos problemas de autoestima e estou num relacionamento saudável e que me ajuda com isso. Acho que eu já escutei tanta gente falando que você tem que se amar pra poder amar alguém que fico toda triggered já kkkkk
        Sobre Yona, eu realmente tenho que terminar. Você é a segunda pessoa que me fala isso haha Não sei se eu vou adotar essa obra porque eu já tenho minha protegidinha, mas vamos ver!

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        1. Eu to em um relacionamento um pouco parecido, mas to aprendendo a gostar mais de mim agora depois de lavar vários tapas na cara. É difícil se gostar, se aceitar, pra falar a vdd eu até hoje não me aceito kkkk por isso às vezes acabo me afundando em livros ou em mangás pra tentar exorcizar coisas ruins da minha cabeça. Daí agora to tentando ser feliz comigo e me mimar de vez quando, só que eu não sei se vai dar certo, mas vou continuar mesmo assim.

          Sobre Yona: pode ler sem medo! O negócio é bom demais! xD

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  4. Eu amo mangá shoujo, mas quando leio os novos sinto um vazio e total desinterrese neles. Não sei o que tá acontecendo, mas todos são parecidos e tem o mesmo enredo é é difícil achar um que seja bom. Acho que é por isso que fui pros webtoons de reencarnação coreanos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Somos dois! Eu migrei totalmente pros manhwas/webtoons. Não estava aguentando mais… Lógico que existem alguns manhwas de reencarnação com enredo genérico também (atualmente estou fugindo dos que tem reencarnação e volta no tempo), mas confesso que as obras coreanas estão conseguindo ser menos genéricas que as japonesas.

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      1. Creio que muito disso se deve ao fato que diferente do habitual das obras japonesas em que a protagonista não faz praticamente nada e depois passa uns 3 capítulos se remoendo sobre tudo que deixou de fazer antes de tomar alguma atitude, que geralmente acaba meio morna pra fria; nas coreanas as protagonistas femininas estão mais comummente sendo retratadas com “é o que? repete isso se tu tiver coragem!”, ou seja, elas tem mais fogo, mais atitude, tem uma reação mais como a da época que vimemos, em que se espera que a mulher pare de depender do príncipe vir salvar ela e sim que ela diga o que pensa.

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  5. Amei o seu texto, me sinto da mesma forma. Leio muita coisa “genérica”, sim, mas sinto falta do algo a mais nos shoujo (incluo também josei nessa mesma linha de raciocínio). Uma das coisas que eu penso se um mangá é bom é o seguinte eu gastaria do meu precioso tempo editando ele? (edito mangá por diversão). Porque somente se eu tivesse vontade de mostrar para diversas pessoas eu consideraria o mangá bom.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Eu estou um pouco aliviada de alguém compartilhar o mesmo pensamento que o meu, já que muita gente não gosta de criticar as coisas que gosta. Infelizmente, eu dei um tempo nos mangás shoujos e estou lendo mais manhwas/webtoons. As histórias são menos genéricas que em mangás shoujos, é revigorante ler algo com um enredo novo.

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