Mizuho Kusanagi – Entrevista 2019 [PT/BR]

Eaê povo, tudo em riba?

Demorou, mas chegou.

capa - Copia

Acharam que a louca da Xícara tinha desistido da ideia de traduzir TODA a entrevista de TRÊS PÁGINAS da Kusanagi DIRETO DO F*CKING JAPONÊS? Pois é, não desisti. Cá estou eu, quase um mês depois. Posso ser um recipiente mágico falante de bebidas quentes, mas surpreendentemente tenho vida pra cuidar. É quase um milagre eu ter terminado isso na verdade.

Enfim, vocês que já esperaram um mês devem estar cansados, então não vou enrolar muito. Tem mais alguns comentários meus no fim do post, caso alguém queira ler. Mas o motivo que te trouxe aqui é com certeza a entrevista, então cá está! (~drum roll~)

AVISO: A entrevista contém spoilers de capítulos recentes (até o volume 29), e também de NG Life

NOTA: quando estiver escrito Yona, em itálico, estamos nos referindo à série, não à personagem. Os links no meio do texto são adição nossa para esclarecimento, e as partes em rosa são minhas notas de rodapé.

Lembrete: Não repostem a tradução. Em vez disso, coloquem o link para esta página. Para retraduções ou outros usos, por favor me consultem primeiro.
  • [ENG] Friendly reminder: Do not repost this translation. Link back here instead. Please ask me first if you wish to retranslate it or use it somehow.
  • [SPN] Nota: No se permite republicar esta traducción. En cambio, puede compartir este link. Si desean hacer una retraducción u otro uso del texto, por favor, consúltenme primero.

Lembrando que a entrevista original pode ser lida aqui. Todos os créditos para o Comic Natalie, eu só traduzi e pretendo lucrar um total de zero dinheiros com ela. É isso e aproveitem~

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INTRODUÇÃO:

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Akatsuki no Yona, de Mizuho Kusanagi, ilustra a jornada e o destino de Yona, a princesa de cabelos vermelhos do Reino de Kouka. Iniciada em 2009, a obra comemora este ano o seu 10º aniversário de serialização com 30 volumes encadernados. Além do anime em 2014, o mangá recebeu também duas adaptações teatrais: uma em 2016, Akatsuki no Yona, estrelada por Risa Niigaki, e outra em 2018, Akatsuki no Yona – Hiiro no Shukumei-hen (“Arco do Destino Escarlate”)*, com Rina Ikoma no papel principal. Além disso, uma nova produção também está prevista para novembro deste ano. Esta ousada fantasia que encanta multidões é certamente um dos atuais pilares que sustentam a revista Hana to Yume (Editora Hakusensha).

Estrelando Kusanagi, esta é a quinta entrevista da série especial que comemora os 45 anos de estreia da Hana to Yume. Pedimos a ela que relembrasse os dez anos que percorreu com Yona; também perguntamos sobre NG Life e outras de suas obras anteriores, além da sua opinião sobre a Hana to Yume.

  • Entrevista e texto por Minami Miki

*Tradução livre

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SOBRE A MANGAKÁ:

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Mizuho Kusanagi

Nascida em 3 de fevereiro na prefeitura de Kumamoto, Japão. Em 2002, venceu o 27º Prêmio Athena Newcomer por Okami Kyoudai ga Yuku!?. Estreou em 2003 na Hana to Yume (Hakusensha) com Yoiko no Kokoroe. A serialização deste trabalho ganhou o 28º Prêmio Athena Newcomer de Debut Excellence. Continuou a ganhar sucesso com Mugen Spiral, Game x Rush, NG Life, e agora com Akatsuki no Yona na Hana to Yume. A série foi transformada em uma animação de TV em outubro de 2014, e chegou ao teatro em março de 2016. Uma segunda adaptação teatral, Akatsuki no Yona – Hiiro no Shukumei-hen, está sendo exibida no EX THEATER ROPPONGI em Tóquio desde novembro, com participação de Rina Ikoma e Masaki Yabe.

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ENTREVISTA:

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“Agora eu finalmente consigo ver o final”

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── Akatsuki no Yona começou em 2009. Meus parabéns pelo décimo ano de publicação!

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Na verdade, eu é que sou muito grata aos leitores que acompanharam esta história por tanto tempo! Não pensei que continuaria por dez anos, mas sinto como se esse tempo tivesse passado em um piscar de olhos…

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── Sim, estava escrito no posfácio do volume 29 que no começo você não achava que a série ficaria tão longa assim.

É porque na época eu não sabia por quanto tempo me deixariam continuar. [O mangá] não era nada popular quando começou, e corria até mesmo o risco de ser cancelado antes da reunião dos Quatro Dragões. Quando o terceiro volume foi lançado, meu editor me disse: “Ah, acho que dá pra ir até o quinto”. Quando saiu o quinto, foi: “Até o sétimo mais ou menos vai dar”; e foi nesse ritmo que chegamos até aqui (risos). No começo eu não pensava tanto em até onde [a história] chegaria, só rezava para que pudesse desenhar bastante, nem que fosse só mais um capítulo. Agora eu finalmente consigo ver o final.

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── Se fosse comparar a história toda a uma montanha, o quanto Yona escalou até agora?

Hum… É só para ter uma ideia, mas uns 70%?

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── Fico feliz em saber que ainda há mais da história de Yona para aproveitar. Agora vamos recapitular o que aconteceu até então: Nos volumes 1 a 8, Yona saiu do castelo e reuniu os Quatro Dragões. No arco da Tribo do Fogo, ela salvou o povo de lá, que sofria vivendo na pobreza (vol. 9~13). No arco da Tribo da Água, enfrentou contrabandistas enquanto uma droga se espalhava pela região (vol. 14~16). Descobrimos mais sobre o passado de Zeno no arco da Província de Kin, já que ele é especial mesmo em relação aos outros Dragões (vol. 17~18). O arco do Reino de Sei começa com magnatas de Sei planejando uma invasão a Kouka e sequestrando a filha do general, Lili (vol. 19~21). Temos o arco do Reino de Xing, que mostra o ressentimento desse povo para com Kouka e a desordem interna pela qual passava (vol. 22~26) e, mais recentemente, o arco do Império Kai, também conhecido como arco da Província de Sen (vol. 27~). Acho que podemos dividir assim.

Isso mesmo. Os volumes 1 a 8 não receberam nenhum título específico, mas já me referi a eles como arco do Dragão Branco, arco do Dragão Azul e arco do Dragão Verde, ou arco de Awa, por exemplo. Em vez de escolher um nome certo, têm vários nomes que acabaram surgindo durante minhas conversas com o editor.

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── Olhando para a história até agora, se você tivesse que escolher três episódios que te marcaram, quais seriam?

i1Bom… Eu me esforço ao máximo para desenhar qualquer capítulo que seja, e todos são igualmente problemáticos, então não tem tanta diferença assim entre eles… Se fosse escolher agora, em primeiro lugar viria o final do arco do Dragão Verde, desde o ponto em que Yona derrota Kum-ji até reencontrar Soo-Won. Naquela época, a Yona ter derrotado Kum-ji meio que gerou uma grande repercussão entre os leitores. Fiquei surpresa, já que a Yona atirando uma flecha teve mais reação do que o desenvolvimento do romance.

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── Foi um episódio impressionante. Yona foi cuidadosamente criada como uma princesa e não sabia nada sobre o próprio país, mas passou por dificuldades e cresceu a ponto de derrotar um vilão como Kum-Ji. Claro, acho que os leitores também estão esperando pelo lado romântico da Yona, mas talvez ver a batalha de uma heroína tão legal tenha gerado algum tipo de catarse.

A propósito, o romance não avançou muito nessa época, mas parece que não havia muita reação do público mesmo quando eu desenhava cenas desse tipo (risos). Com isso, fiquei pensando que o Hak e a Yona não faziam muito sucesso. O arco do Dragão Verde foi usado como clímax tanto no anime quanto nas peças; eu reli o roteiro várias vezes e conversei bastante com os roteiristas sobre ele. De certo modo, acho que ele é um ponto de recomeço em Akatsuki no Yona.

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4── E o segundo episódio que te marcou?

Acho que é o final do arco da Tribo da Água, o capítulo 91: “Ele era um amigo muito querido”*. Eu me esforcei nas expressões faciais do Hak porque me preocupava se conseguiria transmitir os sentimentos dele para os leitores.

*Os títulos de capítulo também são traduções livres

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── Fiquei nervosa pensando no que o encontro inesperado entre Hak e Soo-Won ia dar. Hak queria ser o braço direito do Soo-Won, mas agora seus sentimentos haviam se tornado muito pesados e complicados… Me assustei com a expressão dele no final do capítulo 91. E o terceiro episódio marcante?

É o capítulo 152, “Eu me importo com várias coisas, sabe?”.

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i2── Ah! É quando o Hak se confessa para a Yona… Ou melhor, quando deixa claro pelo menos o que ele sente. A reação dos leitores deve ter sido forte.

Eu estava procurando uma forma para que o Hak pudesse falar o que queria, e acabou ficando daquele jeito. Como não conseguia pensar em mais nada para o storyboard que não fosse aquilo, finalmente cheguei à conclusão de que “isso é o Hak!”, e senti que entendia como ele pensava. Os leitores também disseram que era “a cara de Akatsuki no Yona”, ou “a cara do Hak”, e isso me deixou muito feliz.

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── E a história como um todo, Kusanagi-san? Está fluindo do jeito que você queria?

Os acontecimentos gerais ainda estão dentro do planejado; por exemplo, a reunião dos Dragões, aonde eles vão em seguida, etc. Mas, para os detalhes, eu tive muitas ideias diferentes e descartei várias. Por isso, é claro que muita coisa ficou diferente do plano original.

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── O que você faz quando tem uma ideia divertida para a história no meio da serialização, mas que não estava no plano original?

No meu caso, a maioria das cenas ou falas divertidas fora do contexto acaba sendo descartada. No começo até acho que vai ser legal, mas depois de um tempo eu percebo que elas não combinam com os personagens. Jogo fora e reescrevo várias vezes, e aos poucos vai ficando aceitável. É por isso que tento não me agarrar à primeira ideia.

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“Quero escrever muitas coisas sobre o Tae-jun”

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i3── Yona tem muitos personagens fascinantes, mas um que provavelmente surpreendeu os leitores foi o Tae-jun, filho do general da Tribo do Fogo. No primeiro volume, ele era um sujeito desagradável que tentava se forçar para cima da Yona. Depois, achou que tivesse causado a morte dela e virou um covarde, mas recuperou seu propósito [de vida] com o arco da Tribo do Fogo e participou ativamente do arco da Província de Sen.

Desde o começo havia muita coisa que eu queria escrever sobre o Tae-jun. Queria que ele aparecesse de novo caso a serialização continuasse depois da reunião dos Dragões, já que ele some depois do capítulo 10. Os leitores odiavam o Tae-jun, mas eu também quis que ele se reerguesse depois de ver o crescimento da Yona. Escrevendo com isso em mente, aos pooooucos fui ouvindo dizer que estavam passando a gostar do Tae-jun.

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8── Ele passava a imagem de ser muito arrogante no começo, mas depois virou um personagem difícil de odiar; talvez até adorável… Como leitora, fiquei surpresa. Ele até ganhou a capa do volume 10…

Embora ele seja um personagem fácil de desenhar, eu tinha um certo medo de que os leitores não quisessem ler o volume 10, já que ele também pode ser chamado de “arco do Tae-jun” (risos).

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── Falando nisso, estava escrito no fanbook que a personagem mais difícil de desenhar era a Yona, tanto em termos de traço/design quanto de personalidade. Que partes são difíceis [de desenhar]?

Em termos de traço, eu não me dou bem com o cabelo ondulado… Além disso, a retícula* degradê dá a impressão de que o cabelo é duro, e nunca consigo deixá-lo macio e bonito. Em termos de personalidade, Yona é a personagem principal desta história e, por conta dessa posição, tem dúvidas quanto ao seu [próprio] comportamento e modo de pensar. Quando ela fica preocupada, eu acabo ficando também.

*Retículas (ou screentones) são aquelas texturas que os mangakás usam muito pra finalizar o desenho. Exemplo do bom e velho Mark Crilley mostrando como se usa.

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── Yona é considerada a reencarnação do rei Hiryū, o primeiro rei de Kouka, e por isso tem ao seu lado os Quatro Dragões. Mas ela não é o rei; muito pelo contrário, agora é uma nômade. Mas, mesmo assim, ainda se sente responsável como princesa de Kouka, e muitas vezes tem que tomar decisões sob pressão [e de uma posição instável]. Acho que tanto a Yona quanto você, Kusanagi-san, devem ficar perdidas em relação a qual escolha fazer, ou sobre qual é a melhor conduta a seguir.

Sim, mesmo nos esforçando ao máximo, tem momentos em que nem eu e nem a Yona sabemos [o que fazer]… É complicado.

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── Agora eu queria discutir um pouco sobre o universo [da obra]: Yona se passa no reino fictício de Kouka. Estava escrito no fanbook que você queria escrever uma obra de fantasia sobre uma garota guerreira há muito tempo, e esse foi um dos motivos que impulsionaram a criação dessa obra. Como foi que ela virou uma fantasia oriental?

9A princípio eu não sabia que mundo escolheria. Pensei em várias opções: podia fazer como em NG Life, que se passa na Roma Antiga; ou talvez no Japão antigo, em Ryūkyū ou entre os Ainu*. Mas os personagens e o mundo que eu queria desenhar não se encaixavam em nenhum período histórico. Por isso, decidi priorizar o figurino e os edifícios que eu queria fazer, e acabei me decidindo por uma fantasia oriental.

*Tem tanta coisa nessa frase que eu vou fazer uma nota só: NG Life é um mangá anterior da Kusanagi, que trata de vidas passadas e liga o Japão moderno a Pompeia (não é tão bem acabado quanto akayona, mas é divertido e eu recomendo). Ryūkyū é o nome do antigo reino que existiu entre os séculos XV e XIX nas ilhas onde hoje é Okinawa, até ser anexado à força pelo Império Japonês em 1879. Os Ainu são um povo indígena que, no Japão, habita principalmente a ilha de Hokkaidō (caso vocês queiram sugestões de mangás sobre os Ainu, eu recomendo Golden Kamuy do fundo do meu coração, mas lembrem-se que meu senso de humor é meio lixo).

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── Parece que havia muitas possibilidades. Como Akatsuki no Yona já ficou bem longo, não só há muitos personagens como também acontecem várias coisas. Pessoalmente, como você administra as determinações dos personagens e as situações de acordo com o universo à qual pertencem?

Meu primeiro editor me disse várias vezes: “O cenário já é bem complexo, então tente manter o desenvolvimento da história o mais simples possível”. Assim, tento ir adicionando personagens e acontecimentos com cautela e aos poucos. Por causa disso, o desenrolar da história fica lento e eu não consigo contar toda [a história] do jeito que eu queria, porque são muitos personagens.

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── Você escreveu em uma das colunas laterais do volume 26, durante o arco de Xing, que aquele havia sido um capítulo complicado em termos de escolha, já que havia vários personagens e você não sabia o que desenhar, certo?

Isso mesmo. Mas esta é a história da Yona, então eu tomo cuidado para não mergulhar muito fundo nos outros personagens, já que isso poderia interromper o desenvolvimento dela [da Yona].

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“Ainda bem que estou desenhando! Não foi um erro!”

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10── Nesses dez anos, Akatsuki no Yona já fez sucesso como drama CD, anime, peça de teatro e várias mídias. Pergunto diretamente a você: qual a sua opinião sobre essas adaptações?

Os produtores tanto dos drama CDs quanto do anime e das peças sempre ouviam o que eu tinha a dizer, e também tive a sorte de ter uma boa equipe, bons atores e dubladores. Sou muito grata por isso. Uma equipe e um diretor que respeitam o autor é realmente uma coisa a se agradecer. Como eles me explicavam cuidadosamente o porquê de não conseguirem fazer certas coisas, eu também conseguia pedir “por favor, só não façam desse jeito”, e fazer essas exigências sem receio.

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── Parece que a comunicação fluía bem. Agora, em relação às peças: a adaptação estrelada por Risa Niigaki cobriu o arco da Tribo da Água; a de Rina Ikoma, os volumes 1 a 7 da obra original. Uma nova produção está marcada para iniciar apresentações em novembro deste ano [2019], trazendo novamente a dupla Ikoma e Masaki Yabe (DISH//).

Nas peças, eu basicamente só reviso o roteiro, e não sei como elas vão ficar até assistir depois. Por isso, consigo aproveitá-las do ponto de vista de um espectador. O pessoal do elenco interpreta os personagens com muito carinho, e as cenas improvisadas são muito engraçadas.

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── Poderia nos contar algum acontecimento memorável desses dez anos desde que a serialização começou?

11Ah, tem muitos, e até demais. Em dez anos conheci [vários] assistentes e tive que me despedir de alguns. Todos os assistentes são pessoas muito boas e me ajudam demais. No começo, viajei muitas vezes da minha casa em Kumamoto* até Tóquio para ter reuniões com o departamento editorial. Também já chorei por não conseguir desenhar o storyboard enquanto pensava [no que fazer], já fui em sessões de after record dos drama CDs e fiquei nervosa a ponto de quase morrer…

*Kumamoto é uma prefeitura da ilha de Kyūshū, no sul do Japão. Fica a uns 900km de Tóquio só em linha reta, sem falar que tem que cruzar o mar. O Google Maps me diz que fazer essa viagem de trem leva 13h e 27 mil ienes, então espero que a Kusanagi tenha ido de avião.

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── E por que você ficou tão nervosa durante os after record?

No after record, tenho que transmitir a imagem dos personagens e as nuances das falas ao diretor de som e aos dubladores. No entanto, é preciso muita coragem para dar a minha opinião em meio a profissionais.

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── Realmente, deve ser cansativo.

O drama CD antes do anime foi a primeira adaptação em áudio, e eu fiquei extremamente nervosa. Especialmente no arco do Dragão Verde o elenco era bem extenso, e lá estavam grandes veteranos como Yoshiko Sakakibara (Gi-gan) e Takayuki Sugou (Kum-ji); meu coração e meu estômago doíam. Eu não sabia quem ia ficar com os papéis da capitã Gi-gan e do Kum-ji até o dia [da gravação], então levei um susto e comecei a tremer demais. Tenho várias lembranças desse tipo, então não consigo escolher só uma/a principal. Mas, como estou publicando já faz um bom tempo, aos poucos o número de leitores foi aumentando, e as reações me fizeram pensar que não foi um erro. Ainda bem que estou desenhando!

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── Se você pudesse falar alguma coisa à Kusanagi-san de dez anos atrás, que acabou de começar a publicar Yona, o que a Kusanagi-san de agora diria?

No primeiro ano eu não tinha confiança para levar esta história adiante e suspirava bastante por ansiedade, mas eu gostaria de dizer [a mim mesma] que tivesse mais um pouco de paciência. E também: “continue desenhando, porque logo o Kija finalmente vai aparecer e as coisas vão ficar mais fáceis de repente” (risos).

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── Kija, o Dragão Branco, aparece na segunda metade do volume 3, então a paciência serve para isso (risos). Realmente, o Kija tem uma personalidade forte, é honesto e puro; é um bom personagem. Na serialização atual, o arco da Província de Sen está no seu clímax, então temos a luta entre os Quatro Dragões e o desenvolvimento do romance da Yona. Muita coisa aconteceu.

12Foi divertido desenhar a luta entre os Quatro Dragões, e também enfiar o Algira e o Vold aqui e ali nos intervalos. A segunda metade do arco da Província de Sen só teve exércitos e batalhas, então foi difícil de desenhar, mas também rendeu bons resultados. Não me dou muito bem com derramamento de sangue ou cenas violentas, mas mesmo assim gostei bastante de ver os exércitos bradando gritos de batalha, e os soldados em frangalhos lutando contra as forças inimigas… Sei que estou me contradizendo. Era muito difícil desenhar, porque toda vez eu tinha pouco tempo. Se tivesse mais, gostaria de me dedicar mais às expressões faciais e às [cenas de] batalha.

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── O volume 30, que acabou de ser lançado, com certeza vai reunir todas essas cenas. Mas me diga: qual delas é o destaque?

…Talvez o final.

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── É melhor não falar muito para não virar spoiler, mas estou ansiosa para ler o encadernado!

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“Eu costumava pensar que, se a história ficasse duas vezes melhor, a qualidade do desenho poderia diminuir pela metade.”

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── O volume 30 também conta com uma edição especial, que vem acompanhada de 30 cards artísticos de ilustrações de Akatsuki no Yona. Eu acredito que você esteja desenhando e pintando à mão, mas há planos para mudar para o digital? Fiquei preocupada, já que este parece ser o momento em que os autores adeptos do desenho tradicional estão fazendo isso. A Dr. Martin’s* também encerrou a venda de tintas no país, e a circulação de retículas no mercado tende a diminuir…

13Gosto de várias obras coloridas digitalmente, então admiro [essa forma de pintura]. Também queria aprender a colorir desse jeito, porque não dá para fazer à mão, mas acontece que eu não entendo [a pintura] digital de jeito nenhum; acho difícil fazer essa mudança agora, já que eu gosto da sensação de desenhar diretamente no papel e ainda não quero abandonar o tradicional. Mas a falta de materiais de desenho me deixa triste, e é um problema para mim… Conheço autores veteranos que jogaram fora toda a sua técnica, aperfeiçoada durante anos com materiais caros de desenho, e mudaram para o digital no meio da serialização. Tenho profundo respeito por eles.

*Trata-se da marca Dr. Ph. Martin’s. Em maio, lojas japonesas anunciaram que não teriam mais os seus produtos depois de 31 de dezembro [de 2019], mas parece que a empresa já voltou atrás e não vai sair do Japão por enquanto (fonte). Não confundam com a Dr. Martens, que é uma marca de sapatos, mas que os japoneses muito espertamente escrevem do mesmo jeito.

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── Aprender a desenhar digitalmente no meio de uma serialização… Não é nada fácil, com certeza. E você, Kusanagi-san, do que gosta mais? Fazer as ilustrações ou elaborar a história?

Gosto dos dois mais ou menos na mesma medida, e ambos são difíceis. Antigamente, eu pensava que, se a história ficasse duas vezes melhor, a qualidade do desenho poderia diminuir pela metade. Mas hoje já mudei completamente de ideia. A história é essencial, claro, mas sinto cada vez mais a importância de uma boa arte em um mangá.

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── Acha que existe alguma característica peculiar em alguma parte do seu próprio estilo de desenho?

Eu costumava pensar que não havia nada de especial nos meus desenhos. Mas, a partir de um certo momento, comecei a pensar que meu estilo era meio estranho…

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── Hã, estranho…?

Não sei dizer em que parte específica, mas eu queria fazer um desenho menos pesado. Por outro lado, eu também penso que combina com o estilo [literário] da obra, então estou em um dilema.

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── Eu acho que é um estilo ótimo, já que consegue expressar tanto o romance quanto a comédia e as batalhas de Yona. E como escritora, existe algo que você queira fazer de agora em diante?

É meio óbvio, mas de algum jeito quero levar Yona ao final que eu planejei. Não tenho tempo para pensar em nada além disso, então vou cuidar de todo o resto depois que Yona acabar.

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“Eu não tive escolha a não ser me tornar uma mangaká.”

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── Agora, se possível, eu gostaria de perguntar sobre você, e também de falar sobre o 45º aniversário da Hana to Yume. Por favor, conte-nos por que quis se tornar uma mangaká.

Eu gostava de desenhar e escrever histórias desde o ensino fundamental, então não tive escolha a não ser me tornar uma mangaká.

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── Então realizou seu sonho de infância! Você lia as obras da Hana to Yume?

Eu não comprava a revista naquela época. Mas, durante o fundamental e o ensino médio, lia Glass Mask, Koko wa Green Wood, Please Save My Earth, Angel Sanctuary, The Change!, Akachan to Boku e Arabesque, entre outros.

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── Apenas obras primas.

Sim. Todas elas eram muito divertidas, mas eu gostei especialmente de Glass Mask e Green Wood, então as reli várias vezes. Por outro lado, My Earth é muito intenso e impactante; é o tipo de história que não se consegue [simplesmente] reler de cabeça vazia…!

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── E por que escolheu começar a publicar na Hana to Yume?

Dos 18 aos 22 anos fui assistente da Yoko Matsushita-sensei em Descendants of Darkness, e aí comprei uma Hana to Yume pela primeira vez. Ela reunia vários gêneros diferentes e todas as obras eram divertidas; senti que combinava com o meu perfil. Por conta da minha experiência como assistente, eu também já estava acostumada com o ritmo de [entrega de] manuscritos da revista, então foi natural eu escolher publicar na Hana to Yume.

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── Seu trabalho de estreia foi Yoiko no Kokoroe, que fala sobre a vida escolar de Ren Kuon, presidente do conselho estudantil, e seus colegas, certo?

Essa obra começou como um one-shot, mas de qualquer forma eu consertei o manuscrito várias vezes no começo. Até aí eu desenhava mangás no calor do momento, e sinto que foi nesse ponto que aprendi as bases de como se construir uma história. Eu era muito inexperiente, mas felizmente os leitores gostaram dos personagens, então até hoje sou apegada [a essa obra].

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── Sua segunda serialização foi Mugen Spiral. Você disse no Twitter que, sistematicamente, essa obra é parecida com Akatsuki no Yona.

No fundo, acho que são próximas porque têm uma garota guerreira, poderes sobrenaturais e romance. A história é totalmente diferente, mas sinto que continuei fazendo esses elementos em Yona porque pensei “ahh, eu queria desenhar mais um pouco disso”.

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── Entendo, então foi isso. E quanto à terceira serialização, Game x Rush, que fala sobre um guarda-costas e um assassino? Você tem alguma lembrança marcante dela?

Para Game x Rush, meu editor daquela época me pediu que fizesse algo com uma dupla de garotos. Fiquei preocupada porque era um pouco diferente dos pedidos de sempre, e também porque decidi fazer uma relação antagônica [entre os personagens]. Aprendi muito sobre como desenhar mangás.

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── A próxima obra, NG Life, teve um total de 9 volumes e foi serializada por mais ou menos três anos. Ela foi a sua primeira publicação longa, mas a história ficou do jeito que você esperava? Ou será que teve algum desenvolvimento inesperado?

Ela também começou como um one-shot, então eu não tinha um final pronto desde o começo. Além disso, como Mugen Spiral e Game x Rush foram canceladas, eu não sabia por quanto tempo ia poder continuar NG. Por isso, a princípio decidi construí-la de um jeito que pudesse acabar a qualquer hora, com capítulos leves e independentes, ou então sabendo que seria encerrada em pouco tempo. Mas eu já havia decidido que o Keidai e a Serizawa iam ficar juntos, então o desenvolvimento até o final não foi inesperado. Pelo menos não para mim.

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── Yoiko no Kokoroe, Game x Rush e NG Life têm protagonistas masculinos, enquanto Mugen Spiral e sua atual obra Yona têm protagonistas mulheres. Com isso, a proporção entre protagonistas femininos e masculinos está mais ou menos igual. Como você decide o gênero de um personagem principal?

Eu escolho um que combine com o tipo de história que quero fazer. É mais fácil desenhar personagens masculinos; mas, quando é uma história de amor e quero despertar a simpatia dos leitores, ou quando quero mostrar uma garota dando o melhor de si, escolho uma menina.

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── Você nos contou sobre suas obras passadas até Yona. Agora, será que poderia dizer o que te deixou mais feliz na sua atividade como mangaká até o momento?

Fiquei feliz quando percebi que Y-san, o primeiro editor de Yona, tinha aprovado meu mangá. Y-san publicou meus one-shots de Kuroori-hime to Kawaki no Ou e Yona; mas, em certo momento, ele confessou ter pensado que eu era o tipo de autora que não conseguia fazer manuscritos. O fato de ele ter usado o verbo no passado me deixou mais disposta, já que pensei que essa imagem que ele tinha de mim já havia sumido. Além disso, fiquei muito feliz pelos leitores terem recebido bem uma obra que eu me esforcei tanto para fazer.

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── Por outro lado, o que foi mais difícil?

O fato de Mugen Spiral ter sido cancelado. Fiquei triste ao pensar que não poderia mais desenhar aqueles personagens, mas eu compreendo. Outra coisa que acontece até hoje é quando eu não consigo fazer a história se desenrolar direito, e fico batendo os pés no chão de frustração com a minha própria falta de habilidade. O que me salva são os comentários dos leitores que acharam divertido, mas eu acho que não posso ficar dependendo dos outros assim.

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“Acompanhem o resto da jornada da Yona e de todo o pessoal.”

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── Você mantém contato com algum outro autor da Hana to Yume?

Como moro em Kumamoto, temos poucas oportunidades de nos encontrarmos; mas já tomei chá com Julietta Suzuki e Dai Shiina*, e já visitei a casa delas. Coisas assim.

*Mangakás de Kamisama Hajimemashita e Soredemo Sekai wa Utsukushii, respectivamente. A Suzuki é de Fukuoka, que também fica em Kyūshū, então deve ser um pouco mais fácil elas se encontrarem.

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── Um chá com Kusanagi-san, Suzuki-san e Shiina-san! Que encontro maravilhoso.

Foi muito divertido. Ambas são bem humoradas e muito gentis; eu as respeito muito. Sou uma pessoa tímida e ruim de conversa, mas quando vou à festa de ano-novo da Hakusensha, todos os autores são gentis e conversam comigo (risos).

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── Ouvi falar que, depois do evento principal, os autores são divididos por revista para uma segunda festa que ocorre logo em seguida. A conversa sobre a Hana to Yume deve ficar animada. Em que tipo de obra você pensa quando ouve falar de uma “obra típica da Hana to Yume”?

16Ela é uma revista com mangás de vários estilos e visões de mundo diferentes; mas eu sinto que todas essas obras, mesmo com histórias diferentes, têm um clima e valores semelhantes. Falam de amigos, namorados e família, fúria e convicções… Quando sinto esses pontos em comum, penso que deve ser uma obra da Hana to Yume.

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── A Hana to Yume completou seu 45º aniversário. Que tipo de revista você quer que ela seja no futuro?

Exatamente como tem sido até agora: quero que seja uma revista que reúne vários gêneros, com a mente aberta. Tendo fantasia, tendo também heróis masculinos, com comédia e também assuntos sérios. Além disso, pessoalmente falando, queria muito que incluíssem mais comédias românticas modernas, daquelas que abalam o coração.

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── Finalmente, por favor deixe uma mensagem para os seus fãs, e também para os leitores de Yona.

Muito obrigada por terem acompanhado a história durante seus 30 volumes e 10 anos. Vou desenhar com afinco para que vocês possam acompanhar o resto da jornada da Yona e de todo o pessoal; então, por favor, leiam se possível.

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[fim da entrevista]

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APOIE A AUTORA:

Fã de Akatsuki no Yona? Sempre que financeiramente possível apoie a artista! Como todos sabem, a vida de mangaká não é nada fácil ou estável, por isso é importante lembrar que obras como Akatsuki no Yona ainda existem devido ao apoio que recebem dos fãs. Comprar itens originais ajuda bastante o autor, visto que a venda repercute diretamente na publicação da obra. Essa lógica vale tanto para a compra de revistas onde a série é publicada, bem como os volumes e fanbooks

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Enfim, ser artista em uma sociedade em que a arte vem sendo constantemente desprestigiada é complicado, por isso adquirir coisas originais das obras que vocês gostam é uma maneira de valorizar esse tipo de ofício.

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  • Livraria Fonomag – Livraria Brasileira localizada em SP. Rua da Glória, nº 299 / 301,  Liberdade – CEP:01510-001. Telefone: (11) 3104-3329. Whatsapp: (11) 96269-2091.
  • Yellow Mangas – Página do Facebook que vende produtos importados do Japão. 

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Posfácio da Xícara (que ninguém quer ler)

(Parabéns pra você que chegou até aqui, e sinta-se livre pra pular essa parte)

Tinha escrito um texto comprido e sentimental sobre o processo de fazer essa tradução, mas achei muito egocêntrico e apaguei. Vamos resumir em tópicos então:

  • A Sáh vai brincar que me colocou pra fazer trabalho escravo pra traduzir esse texto, mas tudo bem porque eu que cheguei falando que queria fazer mesmo.
  • Fiz essa tradução também como treino, então esperem erros. Levei vários tapas na cara no processo, mas acho que o resultado tá ok e eu também aprendi bastante.
  • O trabalho não foi só meu. Agradeçam também à Sáh e à Mih pela revisão, sugestões e todo o resto, ou esse troço não teria ficado pronto. Tem outras pessoas que eu também quero agradecer, mas isso eu faço pessoalmente.
  • A vida da Kusanagi é mais ferrada que a minha, mas pelo menos ela faz o que gosta e eu fiquei muito feliz por isso.
  • Cansei pra c@r@lh0 fazendo essa coisa, tá louco. Nunca mais critico a tradução de ninguém.
  • Obrigada por ler!

 

Provavelmente vou sumir do blog por alguns meses depois disso, mas eu volto. Ah, que complicada essa vida de utensílio de cozinha.

.

~Xícara entra de volta no armário da cozinha e desaparece~

9 Respostas para “Mizuho Kusanagi – Entrevista 2019 [PT/BR]

  1. Finalmente essa beleza saiu! Parabéns para nós e em especial para a Xícara que deu o sangue e suor pra traduzir essa entrevista kkkkkk Ficou 10/10~

    Curtido por 2 pessoas

    • A vontade que tenho é de dar um abraço na Xícara e não soltar por umas 2hrs kkkkk ela sofreu demais traduzindo esse negócio, foi literalmente um trabalho escravo HAUSHAUSHASU

      Curtido por 2 pessoas

  2. Finalmente fico feliz e grata pois é um manga de que não mim canso de ler e ho anime já repeti várias vezes parabéns há todos os envolvidos

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  3. OMG gente, vocês são muito loucos *0* o que foi isso??? Nossa Xícara, parabéns, sério. Ficou tudo muito caprichado e dá pra ver que deu muito trabalho. Valeu a pena. Não entendo nada do mangá de akatsuki no yona mas admiro demais esse blog. Vocês são lindos e malucos e todos se dedicam de corpo e alma 🤍u🤍)/

    Curtido por 1 pessoa

    • Aaaaaa obrigada demaisss *——*
      Realmente deu um certo trabalho (bastante huashuashuashu), mas realmente só tem louco nesse blog, então tinha que dar certo de algum jeito. Obrigada mesmo, eu fico muito aliviada em saber que o resultado ficou bom (ノ´ヮ`)ノ*: ・゚

      Curtido por 1 pessoa

  4. Ufa, até que em enfim estou aqui pra te parabenizar Xícara. Te admiro muito, você é um achado de pessoa. Parabéns pelo trabalho de excelente qualidade.

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