EU INDICO: MARS – Um shoujo único, estranho e inesquecível.

Olá! Como vai? Tudo ótimo? Tudo bem?

Hoje vamos falar de MARS!

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Eu fiz questão de indicar este mangá no mês do meu aniversário (Setembro).

Apresento à vocês O MELHOR SHOUJO da Bessatsu Friend. A primeira publicação da revista foi em 1965 e, durante esse tempo, nenhum mangá conseguiu desbancar o impacto de MARS. Eu gosto tanto de MARS, mas tantooo que ele permanece nos favoritos do meu MyAnimeList desde os primórdios daquela conta.

Aliás, se você veio aqui procurando indicação de shoujos etiquetados com o padrão Betsuma da vida (heroína boa moça, ensino médio = castelo cor de rosa com glitter voando em formato de flores de sakura, amor, amor, amor e príncipes imaginários… ), pode dar meia volta. Eu não indico esse tipo de coisa aqui. 

Mas enfim, vamos logo para os aparatos técnicos…

Sinopse:

Kira, uma estudante tímida do ensino médio, vive apenas por sua arte. Rei, um playboy arrogante, rebelde e violento, usa sua delinquência como um emblema de honra. Eles são exatamente opostos em todos os sentidos, mas seus destinos acabaram se cruzando devido à vários acontecimentos atordoantes – alguns mantidos em segredo, outros simplesmente borrados pela memória.

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Ficha técnica:

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Autora: Fuyumi Souryo (História e Arte) | Status: Mangá finalizado em 15 volumes (60 capítulos) | Demografia: Drama, Romance, Shoujo, Slice of Life, Psychological | Publicado na: Bessatsu Friend | MyAnimeList

Impressões:

Eu vou dizer pra vocês o que torna MARS um shoujo único:

ELE NÃO SE PARECE COM UM SHOUJO.

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–  Ok, então talvez se pareça com um JOSEI?

–  Olha… sinceramente…

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Eu não sei realmente o que MARS se parece.

Essa obra possui um dos enredos mais abstratos e loucos que já tive contato.

Talvez ele possua mais cara de manhwa. Sim, um manhwa (quadrinhos coreanos), cuja maioria das obras é caracterizada por um aprofundamento psicológico pesado e complexidade instigante no enredo. Na minha opinião seria uma mistura esquisita de seinen e manhwa – com um pouco de romance. 

Tudo bem, mas ele não se parece mesmo com um shoujo? Estamos falando de um romance publicado Bessatsu Friend, lógico que terá características voltadas ao mundo do shoujo – caso contrário não seria publicado nessa revista. Contudo, o teor de shoujo disso aqui é bem ofuscado pelo aprofundamento da obra. Um paralelo meio insano está relacionado ao fato de Death Note ser uma obra abstrata/obscura e, MESMO ASSIM, pertencer à Shounen Jump. Vocês conseguem imaginar outra obra estilo DN ser publicada na Shounen Jump? Parafraseando a pergunta: depois de Death Note, quais obras desse feitio foram publicadas na Jump? Quase nenhuma. Por quê? Porque o padrão mudou e esteriótipos foram criados. A mesma coisa aconteceu com MARS. Não tinha uma linha que separasse devidamente as demografias shoujo/josei/seinen na época e é por isso que eu amo com todas minhas forças obras antigas, porque coisas legais acontecem… tipo heroínas retraídas e choronas ganharem senso de justiça e quererem praticá-lo com as próprias mãos. 

Diferente de muitos shoujos, em MARS as pessoas não são testadas. Elas são obrigadas à mostrar sua real natureza, a natureza perversa do mundo real.

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Ou seja: MARS foge do senso comum. As pessoas aqui têm problemas e você não vai ver hipocrisia nos julgamentos.

Mas é exatamente neste ponto ínfimo de honestidade brutal… que a gente se choca.

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Mas por quê?

Porque não é normal.

A verdade é que fizeram uma lavagem cerebral em nós.

Quem diabos disse que todas protagonistas precisam ser puras e de boa com a vida?

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Elas não têm problemas? Quer dizer, só os caras têm problemas e as garotas têm que correr atrás da solução do problema deles? E elas? Foda-se essa merda. Nos anos 90 não existia a síndrome cor de rosa da Betsuma, os shoujos aqui eram loucos e cheios de problemas – PORQUE A VIDA É ASSIM.

Todo mundo possui problemas. 

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Mas a gente foi acostumado a pensar que num enredo shoujo, o único que tem problemas é o cara que a protagonista gosta e ela tem que correr atrás de uma solução para criar um relacionamento decente. Mentira? Nós contamos nos dedos as obras que não seguem esse fluxo. Aqui, neste mangá, os dois têm problemas.

A vida é feita de acasos e diversidades, então por que a maioria dos shoujos escolares fazem a trama girar em torno de um ponto exclusivamente masculino? Vai saber.

Aliás, quem disse que amar é uma coisa fácil? Fuyumi Souryo cria um enredo tão pesado em torno desse relacionamento, mas tão pesado que só nos resta citar Carlos Drummond de Andrade:

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus”

A carga psicológica desse mangá é absurda.

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Diferente de outras mangákas, Souryo-sensei cria uma trama tão intensa e profunda que por mais que achemos tudo aquilo absurdo… de certa maneira: é justificável. 

Não é aquele tipo de drama descartável que o leitor se irrita e pensa “que coisa idiota!” ou “por que não se resolvem logo?”. Existe drama, muito por sinal. A questão é que em MARS as coisas são sérias e extremamente surpreendentes ao ponto de fazer o leitor pensar coisas fora do senso comum junto com os próprios personagens.

É assustador como a obra – literalmente – nos obriga a pensar em coisas excêntricas fora do roteiro. Por exemplo:

Afinal, o que é justiça…

[…] aos olhos de um criminoso?

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E o que é justiça aos olhos da vítima?

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MARS é a personificação pura de que a sociedade é regida pelas aparências e as pessoas ingênuas de coração e mente sofrem. Uma das mensagem subliminares da obra é: o que nos é necessário para sobreviver neste mundo corrompido?

Coragem? Distinção? Destreza? Ganância?

Maldade?

Por mais que percorramos caminhos distintos na vida, sempre encontraremos pessoas más que nos farão pensar em desistir de nossos objetivos, da nossa força e, em alguns casos, até da vida.

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E se nós acreditarmos que não somos bons o bastante?

E se acreditarmos que não temos o direito de ser feliz, só porque nossas condições não apontam para a tal felicidade?

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Acho que já deu para entender onde quero chegar. Meu objetivo aqui não é jogar spoilers em cima de vocês ou contar como os protagonistas se conheceram, mas fazer vocês entenderem a essência dessa obra, pois ela é deturpada. Os protagonistas não são pessoas normais que se encontraram através do destino e o enredo gira em torno de rosas onde a única preocupação é “Será que eles ficarão juntos?”. Honestamente, neste tipo de história, pouco me importava se eles ficavam juntos ou não, minha maior preocupação era a saúde mental de ambos.

Eu não queria ver eles necessariamente juntos, porque era fofo. 

Eu queria ver os personagens evoluírem.

Contudo, a grande jogada da história foi o seguinte: por mais opostos que fossem, eles não conseguiam evoluir como pessoas sem a presença um do outro. Eles se acalmavam juntos. No início do mangá ficou totalmente evidente que Rei tinha vários problemas de personalidade, algumas cenas são realmente assustadoras, pois transpassam o real sentimento de medo. Para falar a verdade, aquilo era psicopatia pura. Kira, por outro lado, aparentava ser uma menina normal – mas só aparentava mesmo.

A verdade é que Fuyumi Souryo criou dois personagens destroçados pela vida e os encheu de falhas……… DOS OUTROS.

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Durante o desenvolvimento do mangá isso fica bem nítido. 

Eles não possuem falhas reais, elas foram materializadas por circunstâncias que englobavam pessoas ruins e de má fé. O negócio é tão pesado que isso não envolve fatores externos: está dentro da própria família. Sinceramente, é frustante. 

É frustrante e dualista. Vai ter um momento que nós iremos colocar a vida das pessoas à prova e condená-las porque são ruins. Surgirão até pensamentos do tipo: e os direitos? Quer dizer, pessoas ruins têm direitos? Então perante à sociedade, minha vida tem o mesmo valor da de um criminoso ou psicopata? Eu, uma vítima?

“Eu não sei mais o que é ser uma boa pessoa”

É desolador ganhar empatia por um personagem de índole boa e sempre quebrar a cara junto com ele porque não existe um significado concreto pra essa tal coisa chamada “confiança”. Os únicos que eles podem confiar é neles mesmos.

18.jpgEntretanto, isso muda um pouco no final do mangá. Alguns personagens são introduzidos e, graças à Deus, confirmam o fato de que existem pessoas boas nesta merda de mundo.

Provavelmente essa é uma das melhores partes do mangá. Fica clarividente que os personagens evoluem quando abandonam parte do passado e abraçam outras, porque eles aprendem na pele que o passado também faz parte de quem são.

É lindo como eles abrem seus corações… 

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E SE COMPLETAM.

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“O que temos agora na nossa frente é somente a realidade”

O romance nessa parte é muito bem trabalhado. Pelo senso comum, seria essa parte que entraria o “shoujo” da coisa? Apesar das psicopatias do Rei (que serão justificadas) e dos traumas da Kira, essa obra totalmente corrompida por desavenças não conseguiu distorcer os vários significados do amor (verdadeiro). Um deles bem expressados aqui seria o simples fato de

A C E I T A R

as diferenças

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MARS é uma obra complexa e bastante surpreendente para a demografia apresentada, pois é um amaranhado de problemas, complexos e atrocidades. Os personagens são tão profundos que é simplesmente impossível não tomar as dores dos mesmos. DÓI E DÓI MUITO. A sensibilidade desse mangá é monstra, porque não gira apenas em torno de romance, mas de transformações.

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As pessoas se exibem, mas não mostram o que está exatamente dentro do coração delas e é muito gratificante quando essa barreira é quebrada. Entendem o quão fascinante é isso para uma indústria onde o shoujo É LIMITADO à “doki doki, meu coração tá batendo tão rápido…”? Chega a ser ridículo, por isso existe a tal fama de shoujo ser sempre a mesma coisa. Em MARS, por outro lado, a mangáka desenha uma linha tênue entre o inferno pessoal e ao ato estúpido – considerado pela sociedade – de tentar salvar essa pessoa do tal inferno.

“O coração das pessoas parece um universo sem limites. Uma pessoa tentar, intencionalmente, afetar o coração de outra pessoa, pode ser que seja um ato estúpido” 

MAS NÃO É.

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NÃO É ESTÚPIDO, porque bem lá no fundo não existe sequer resquícios de orgulho. O que essas pessoas querem mesmo e sempre fazem dentro de suas cabeças é procurar ajuda. 

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Concluindo… 

Se eu indico MARS? Eu não leria esse mangá 3 vezes se fosse ruim. Li 3 vezes e em todas as vezes foi impossível não se emocionar. Também me assustei com algumas cenas, mas o desfecho dessa obra atrelado ao significado de seu título foi de uma natureza memorável. Já deve ser de conhecimento de vocês, mas o nome “MARS” possui dois significados:

  1. O planeta
  2. O Deus da Guerra.  

Fica explícito que a mangáka escolheu o segundo significado e que atribuiu a figura de Rei ao Deus da Guerra, mas sabe o que é mais legal? Na mitologia, o Deus da Guerra mesmo possuindo uma personalidade cruel e rude, fez a enorme contradição de se apaixonar por Vênus (A Deusa do Amor). O fruto desse amor maluco originou um filho, cujo nome é bastante conhecido: cupido.

Bonito, não? Mas eu possuo uma opinião diferente. No meu ponto de vista, depois de ler esse mangá várias vezes, eu notei uma coisa: o fato de atrelarem a imagem de Rei ao Deus da Guerra e Kira à Deusa do Amor é realmente notório, mas não define completamente o mangá. Para mim isso é fachada – muito bonita por sinal. Em minha opinião, MARS é colocado aqui como um pretexto para aludir o fato de que nós sempre estarmos em guerra com nós mesmos. 

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Essa, para mim, é a real essência do mangá. 

Estamos sempre brigando com nós mesmos buscando aceitação nos outros e principalmente em nós mesmos. Queremos criar um lugar seguro para ficar, para retornar e, por vezes, tal lugar chega a ser ilusório. A verdade nua e crua é que a gente não sabe o porquê de buscar tanta aceitação ao ponto de entrar em discórdia, mas sabemos que é uma coisa importante. É tão importante que até a própria autora respondeu uma parte do paradigma:

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aaaaaaaa

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Informações:

MARS possui 60 capítulos e todos estão traduzidos para o português por uma scan brasileira chamada Hwey! 

  • Baxem em português AQUI

Caso algum integrante dessa scan encontre este post: muito obrigada por traduzem MARS para o português. Vocês são sensacionais! ❤

OBS: Mas e aí, por onde anda Fuyumi Souryo? Depois do término de MARS e de uma série curta de 1 volume chamada Tamara, ela nunca mais voltou a publicar na Bessatsu Friend. Logicamente, já dá até pra perceber o caminho que ela tomou… ela entrou com tudo no mundo do seinen, e foi logo na Morning, a mesma revista de Vagabond, Uchuu Kyoudai e Planetes. #QuemPodePode – mas confesso que gostava mais quando ela publicava esses dramas malucos com faixada de shoujo, a falta que essa mangáka faz (nesta demografia) é indescritível.

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Enfim, indico MARS para vocês com todo o apreço do mundo! 

Espero que tenham gostado da indicação.

1aa

 

 

– See you space cowboy

5 Respostas para “EU INDICO: MARS – Um shoujo único, estranho e inesquecível.

  1. ESSE MANGÁ É MARAVILHOSOOOOOO!!!
    Li todo pelo ToshiwaYume quando eu terminai estava A-CA-BA-DA, mas feliz tbm kkkk
    Quem leu a de concordar com você é uma trama das mais notórias marcada pelo “aprofundamento psicológico pesado e complexidade instigante no enredo”
    Eu conheci Mars pelo dorama, vi uma imagem deles dois lindinha no face e fui procurar o dorama, mas antes que tivesse a oportunidade de assitir encontrei o mangá e não me arrependi.
    É um tipo de história que vc não consegue desgrudar, vc simplesmente tem que ler mais e mais pra saber o que vai acontecer com aquelas pessoas que se tornaram tão queridas. Eu não larguei até ter terminado e tudo se desenvolve de tal forma que vc não tem tempo de ficar chateado com nada vc apenas torce por eles… Agora não sei se pelo tempo q li minha memória me prega peças, mas sempre q eu lembro de Mars (mangá q eu RECOMENDO FORTEMENTE) eu tenho aquela sensação de que apesar das dores e dificuldades os personagens se mantiveram juntos até o fim, enfrentando tudo juntos e é o q me deixa mais nostálgica e feliz (essa é a impressão que ficou comigo tbm quando assisti Devil Besides You, dorama) diferente do q acontece com outros mangás cujo casal se separa sem motivos razoáveis -.-

    Curtido por 1 pessoa

      • Eles se separaram momentaneamente, mas voltaram depois de alguns dias. Fico muito feliz que alguém comentou neste post, porque eu tenho um carinho muuuuito forte por MARS. Como você deve ter percebido durante meus posts..eu sou uma pessoa bastante atenta a detalhes e por isso tento extrair o máximo do que leio/assisto. E esse shoujo, meu Deus, esse shoujo destrói todos meus sentidos quando o assunto é “dor”, porque a sensibilidade das cenas e palavras nesta obra são opressoras demais, nós sentimentos a dor dos personagens.

        Enfim, fui cativada e não faço questão alguma de negar.

        Curtir

      • É por isso que tenho adorado suas resenhas, me encanta ouvir (“ler”) a opinião de outras pessoas sobre algo que tenho interesse e o melhor é quando essa opinião de acrescenta e faz refletir 😍
        Eu também fiquei surpresa por Mars ter ficado tão parado :/
        Agora eu confesso q até hj não consegui assistir ao dorama, sempre que eu começo me sinto apreensiva e paro.

        Curtido por 1 pessoa

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